O mercado de trabalho para engenheiros está em expansão no Brasil. Um estudo realizado pelo Instituto de Planejamento Econômico Aplicado (Ipea) alerta que com o atual ritmo de desenvolvimento, em 2015, podem faltar cerca de 250 mil engenheiros no País. De acordo com o Sindicato dos Engenheiros
do Estado de São Paulo
(Seesp), aproximadamente 30 mil estudantes concluem cursos de engenharia todos os anos.
  Para suprir a demanda do mercado nacional, no entanto, é necessário dobrar esse número. Isso porque somente o setor da construção civil, por exemplo, abre uma média de 300 mil vagas anualmente.
  O índice de universitários que chega a concluir a faculdade de engenharia, porém, é baixo. De acordo com o Censo da Educação Superior, em 2008, apenas 11,7% dos alunos da área de eletricidade e energia conseguiram o diploma. Na especialidade de eletrônica e de automoção, o número de formados caiu para 10,2%.
  ‘‘Acredito que a falta de mão de obra nem começou. A situação vai piorar devido à Copa de 2014 e às Olimpíadas de 2016’’, afirma o engenheiro civil Julio Cotrim, vice-presidente do Clube de Engenharia e Arquitetura de Londrina (Ceal). Uma solução, segundo ele, é aumentar o número de vagas nas universidades. ‘‘Porém, é necessário investir em um ensino de qualidade’’, alerta o engenheiro.
  Durante entrevista concedida à reportagem da FOLHA, Cotrim aponta as razões da escassez de mão de obra e ressalta: ‘‘Em todos os lugares existe alguma coisa relacionada à engenharia e se o País deseja crescer tecnologicamente tem que ter uma boa formação de base de engenheiros.’’
  O que explica a carência de engenheiros no mercado?
  Nas décadas de 1980 e 1990 houve um apagão das áreas tecnológicas e de construção. Com isso, muitos profissionais não encontraram trabalho na engenharia e foram buscar emprego em áreas mais promissoras. Uma parcela dos profissionais acabou indo para as áreas financeira e comercial, para bancos ou para instituições públicas. A engenharia é uma profissão muito versátil e se adapta a outros segmentos. Essa versatilidade faz com que as empresas contratem engenheiros para ocupar outras vagas.
  Outra explicação para a carência de mão de obra é que, de uns anos para cá, houve um ‘‘boom’’ na área da construção civil. O governo passou a incentivar a construção com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e com o Minha Casa, Minha Vida. Além disso, começou a oferecer facilidades para financiamentos, o que impulsionou o setor. A área tecnológica também avançou.
  E como solucionar a escassez de mão de obra? Aumentar o número de vagas nas universidades é uma saída?
  A procura pelos cursos de engenharia aumentou bastante, mas realmente faltam vagas. No entanto, é preciso pensar na sustentabilidade desses profissionais no futuro. Eu acredito que a falta de mão de obra nem começou. A situação vai piorar até porque temos a Copa do Mundo em 2014 e as Olimpíadas em 2016. Muitas obras serão realizadas em estádios de futebol, em aeroportos, na estrutura viária, em metrôs, etc. Aumentar o número de vagas é uma solução para suprir toda essa demanda, porém é necessário investir em um ensino de qualidade. Não adianta aumentar o número de vagas se não tiver mais professores, mais laboratórios. É uma questão de política pública.
  Como está a qualidade dos cursos de engenharia hoje?
  Houve uma reformulação nas disciplinas e a qualidade melhorou muito. Os cursos de engenharia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), por exemplo, estão entre os melhores do País.
  O que mudaria se existissem mais engenheiros no mercado?
  Ainda existe uma grande quantidade de obras irregulares no Brasil. São obras que não têm o acompanhamento de um profissional. Quando falta mão de obra no mercado é inevitável que isso aconteça. Se existissem mais engenheiros ia crescer a quantidade de obras com o acompanhamento de um profissional e a qualidade das construções melhoraria. Essa seria a maior mudança.
  Então a carência de mão de obra faz com que as pessoas lancem mão de profissionais não qualificados. Qual risco essa atitude representa?
  As obras clandestinas, que não contam com o acompanhamento de um profissional, colocam em risco a segurança e a vida das pessoas. Em qualquer área o acompanhamento especializado não gera só segurança como também economia.
  Como o senhor avalia a remuneração dos engenheiros?
  O piso salarial do engenheiro sempre existiu. Atualmente a remuneração é de nove salários mínimos para oito horas diárias de trabalho. O que acontece é que quando o número de profissionais é baixo e a demanda é alta o valor do salário aumenta. Essa é a tendência. Há cinco anos a maioria das empresas contratava recém-formados e pagava bem menos. Hoje é muito difícil isso acontecer, pois até o recém-formado está conseguindo uma colocação muito fácil no mercado.
  Fiz uma pesquisa rápida em Londrina e verifiquei que está faltando engenheiro qualificado e com experiência. Outra constatação é que, devido à falta de mão de obra, os engenheiros mudam de empresa com facilidade. Eles vão atrás de melhores salários e buscam oportunidade de crescimento. Para evitar essa alta rotatividade, a empresa deve implantar políticas de benefícios para não perder os bons profissionais.

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