Prece de um agnóstico na Páscoa
Paulo Briguet
Meu nome é José de Nada. Desde a infância, não tive relação direta com Ele. Nossos diálogos foram esparsos e incompletos, já que um dos envolvidos eu não consegue ter fé na existência do Outro. Mas não desacredito; desacreditar seria um tipo de fé. Explica-se, portanto, o respeito e o uso da letra maiúscula ao citá-Lo. Se alguém perguntasse por Ele, eu diria que nada sei. O que combina, aliás, com meu nome. José de Nada. Não sou ateu. Sou agnóstico.
Contudo, recentes acontecimentos na minha aldeia, onde trabalho meu pequeno trabalho e vivo minha pequena vida, abalaram-me a ponto de causar inesperada transformação de espírito e ânimo.
Isso que já definiram como o mar de lama levou-me a buscar uma via de comunicação que não tento desde a infância: a prece.
Devo contrariar, hoje, a natureza do meu nome e as leis da minha não-religião. Neste domingo, eu, José de Nada, reservo-me o direito de falar um pouco a esta aldeia, este País, este somatório de longitudes denominado planeta. E a Ele.
Rezo, pois, ao interlocutor de todas as coisas.
Rezo, mesmo sem saber se Ele me ouve, para descobrir por que o dinheiro da aldeia foi para o abismo, o do abrigo para o relento, o da saúde para a doença, o da educação para a ignorância, o da moradia para o esconderijo, o do caráter para o instinto, o do público para o privado, o da segurança para o desamparo, o do tesouro para o ego, o da certeza para a dúvida, o da luz para a escuridão.
Mesmo ignorando se haverá resposta, rezo para que a riqueza fácil do poder nominal não apresente harmonias familiares para esconder o germe do caos.
Há alguém do outro lado da linha? Não importa: rezo. Para que o roubo não se transforme em método de governo dos homens.
Rezo e que Ele me perdoe a rude linguagem contábil para que as dezenas de milhões voltem à morada, como aquele Filho Pródigo de tão bela parábola.
Aos marinheiros da lama, rezo para que tenham saúde por muitos e muitos anos, e assim possam reconhecer a mudança dos mares, dos ventos, dos tempos, das coisas e dos homens.
E para que os feitores do mal sejam um dia perdoados, rezo, sem me esquecer de que, para perdoar, é preciso haver o reconhecimento do pecado. No caso da lei dos homens se é que podeis me ouvir, Senhor há que se ter a reparação do erro, a penitência, a pena.
Rezo para que eles falem o que sabem verdadeiramente falem, sem subterfúgios ou armadilhas.
Aos homens de bem, a esses é preciso rezar sempre. Assim eles compreendam: mil vezes é preferível acolher a frieza dos documentos da verdade a acreditar nas lágrimas da mentira pública.
Para que as almas simples não se percam no labirinto dos gabinetes e não sejam enganadas pelo mal, rezo.
Com respeito àqueles que promovem a Justiça e vasculham a tempestade, rezo para que trabalhem em paz e concluam serenamente a tarefa.
Rezo para que os manifestantes da revolta um dia possam parar de gritar mas que ninguém descanse a garganta enquanto não houver a certeza do dever cumprido.
Ao futuro, rezo. Mas rezo também aos que já não são, e hoje perambulam revoltados e invisíveis entre as esquinas da aldeia, perguntando silenciosamente aos ouvidos de quem lê notícias: Por quê? Por quê?
Rezo para que sejam desmascarados aqueles que tentam fugir da lei apelando à Vossa imagem.
Pois sou apenas um agnóstico, e meu nome é José de Nada, Senhor. Como tal, posso garantir, não usarei Vosso nome em vão, ainda que não saiba se estais me ouvindo nesta Passagem neste domingo que também chamam de Páscoa.
- PAULO BRIGUET é redator da Folha.





