Praia de naturismo no Paraná
PUBLICAÇÃO
domingo, 03 de agosto de 1997
Mário Bylt 
A leitora Edna, de Curitiba, escreveu ao jornal sugerindo-nos a implantação de uma praia de naturismo em Pontal do Paraná. É nosso sonho e só depende da boa vontade das autoridades locais e da população que habita ou frequenta nosso litoral.
Embora o naturismo seja uma prática legal, saudável e sem contra-indicações, enfrenta ainda muito preconceito, causando desconfiança e reações imprevisíveis nas pessoas menos esclarecidas. Como somos nós os prejudicados, temos que agir com muito tato para conseguir algum tipo de apoio externo. Sua carta muito nos ajuda. Poucas são as pessoas, naturistas ou não, que empunham publicamente nossa bandeira. A maioria prefere ficar no anonimato, por razões lógicas e compreensíveis.
Uma praia de naturismo precisa atender alguns requisitos básicos, e dentre eles o mais importante é dar condições de segurança, tranquilidade e exclusividade aos naturistas. Contrariamente ao que muitos pensam, não somos exibicionistas. Não nos sentimos bem na presença de pessoas vestidas, pois entre elas sempre detectamos curiosos e mal intencionados que perturbam a ordem. As praias oficiais brasileiras, como Tambaba (PB), Barra Seca (ES), Pinho e Pedras Altas (SC), atendem essa condição. São ladeadas de morros quase intransponíveis e possuem um único caminho de acesso, o que permite a instalação de uma portaria para orientação e controle dos novatos que chegam.
Temos que respeitar a vontade daqueles que acham que andar vestido é obrigação. Não nos aceitam em seu meio, mesmo sem saber por que se vestem. É apenas um costume, e pode ser mudado. Enquanto perdura o impasse, procuramos privacidade.
No último final de semana dediquei-me a percorrer todo o nosso litoral, de Praia de Leste a Pontal do Sul, procurando encontrar uma solução para a falta de privacidade. A solução existe, mas como disse, precisa de apoio oficial e compreensão de todos os envolvidos, naturistas ou não. Ainda existem trechos não construídos na orla, mas os donos do terreno talvez não aprovem a ocupação. Vamos pesquisar.
O primeiro passo é a formação de uma associação que assumiria o controle do comportamento na área, com estatuto, regras e código de ética, dentro dos moldes propostos pela INF e FBN, as federações internacional e brasileira de naturismo. Essa associação já existe, é a nossa PARNAT. Em seguida, o mais difícil: a obtenção de um Decreto Municipal destinando um trecho de praia à prática do naturismo, atribuindo à associação a responsabilidade do controle. Esse trecho de praia é público, mas o público dali é restrito. O costume nega ao naturista o direito de entrar despido em qualquer praia (todas as outras), então o mesmo costume deverá dar aos naturistas seu direito à privacidade, não permitindo o ingresso dos vestidos. É um ponto delicado que só pode ser contornado pela compreensão plena dos direitos individuais. Todos podem entrar, desde que despidos. É o costume local que deve ser respeitado.
O resto é fácil. Os proprietários da faixa em frente à praia podem constituir um condomínio fechado, como já existente na praia de Atami, e explorar comercialmente um hotel, pousada, bar, restaurante, camping e estacionamento, sob supervisão e orientação da associação. Enquanto cumprirem as regras os naturistas frequentam. Se deixarem de cumprir eles fogem e o lugar fica deserto, perde a atração. É uma galinha dos ovos de ouro, que não serve para canja. No carnaval de 95 contei mais de mil e quinhentas pessoas na praia do Pinho, na hora do sol forte.
Delimita-se um trecho de uns oitocentos metros. Placas e faixas informam as regras básicas como: não fotografar ou filmar, não satisfazer necessidades fisiológicas em público, não manifestar sexualidade através de atos, gestos e palavras obscenas, olhar com discrição etc. No primeiro ano há necessidade de policiamento fardado nas duas pontas, além dos salva-vidas. Pessoas treinadas, da associação, recepcionam os que chegam pela areia. A portaria central recebe e orienta os veículos. Os visitantes estacionam, deixam a roupa no veículo e vão à praia. A faixa central, de uns quatrocentos metros, é destinada exclusivamente a famílias, casais e mulheres. Sobram duas faixas laterais de duzentos metros para aqueles que deixarem a mulher em casa, lavando suas cuecas, e vão para lá ver mulher pelada. Na segunda vez eles vêm acompanhados.
Não se trata de discriminação. É apenas uma condição. Eles próprios, quando começam a frequentar com a família, defendem e exigem essa condição. É óbvio.
Vamos tentar? Teremos o respeito e apoio da vizinhança? E o respaldo das autoridades? Tenho certeza que é possível. Know-how nós temos, só falta o empreendedor da infra-estrutura. Aguardamos a manifestação dos interessados.
- MÁRIO BYLT é professor e presidente da PARNAT - Associação Paranaense de Naturismo


