Povos indígenas rompem o silêncio
Povos indígenas rompem o silêncio
Hugh Brody
Ao longo de todo o mundo produziu-se uma importante perda de idiomas tribais neste século, possivelmente uns 5 mil. Apenas no continente americano desapareceram, ou estão à beira da extinção, mais de mil línguas nos últimos 30 anos. O ritmo desse processo foi acelerado pela expansão das escolas e de outras instituições sociais homogeneizadoras.
O desaparecimento dessas maneiras de falar e de entender o mundo constitui uma perda inestimável para a mente coletiva da humanidade, assim como um prejuízo praticamente irreparável para a índole humana. É também motivo de intenso pesar e desorientação para centenas de milhares de homens e mulheres de grupos tribais, que lutam para serem eles mesmos sem as palavras para dizer o que isso significa.
A agressão européia contra as línguas tribais está bem documentada. Para os europeus, o extermínio da população, a erradicação de culturas inteiras, a expulsão das comunidades de terras que os colonos queriam para eles e a realocação dessas comunidades em terras que os invasores não queriam para si, não foi suficiente. De fato, muitas vezes, os administradores de terras ou de sociedades indígenas trataram de acabar com os sobreviventes, adultos ou crianças, capazes de manter as tradições e idiomas das tribos.
Os povos indígenas vêem sua existência moldada por um amargo paradoxo. Por um lado, são os habitantes originais e poderiam reivindicar prioridades e direitos que vão além dos de todos aqueles que são, relativamente, recém-chegados às suas terras. Por outro lado, eles vivem à margem nos aspectos políticos, legais e geográficos da sociedade, vêem-se privados de muitos de seus mais valiosos recursos e lhes é negado o direito de herdá-los ou, até, o direito à própria vida.
Na década de 60, viu-se o surgimento de explosivos movimentos de libertação dos povos tribais. No Canadá, o grande chefe dos shuswap, George Manuel, criou a expressão o quarto mundo para definir uma comunidade de interesses tribais. As tribos, em sua opinião, são nações dentro das nações e como tais devem ser reconhecidas. Manuel também disse que a agressão colonial contra o quarto mundo era vista mais claramente em ataques à herança cultural e à linguagem realizados institucionalmente por missionários, governos locais, funcionários e escolas do que no racismo dos colonos estrangeiros e nas rotinas discriminatórias da vida cotidiana.
Desde o trabalho de Franz Fanon, autor de Os condenados da terra (1961), os intelectuais e os ativistas estão atentos ao modo pelo qual esta combinação de forças racistas apronta das suas contra a vida e a psique dos povos tribais.
Aqueles que suportam longas opressões coloniais registram e acumulam em suas memórias as atitudes de seus opressores. Mas, ainda que a cólera dos oprimidos seja intensa, frequentemente fica contida dentro deles mesmos e os faz cair em um silêncio profundo.
Em muitas partes do mundo, entretanto, o silêncio está sendo rompido pelos movimentos que reclamam terras, pelo ressurgimento cultural e pelo protesto contra o colonialismo, na luta desses povos para não desaparecerem.
Entre os que tentaram ou continuam tentando impedir o desaparecimento de suas culturas e suas línguas está o povo de Irian Jaya, que lutou durante uma geração contra a invasão de suas terras e a agressão às suas vidas por parte dos militares e colonos indonésios. No Sri Lanka, os vaniall-atto, habitantes primitivos de toda a ilha, agora estão reduzidos a apenas 2 mil pessoas e estão lutando por seus direitos.
Na Austrália, grupos aborígenes estão defendendo tudo o que resta de sua herança e de suas terras, levando seus casos aos tribunais. Em toda a América Latina, os povos indígenas estão enfrentando o processo iniciado com a chegada dos primeiros europeus, que provocou a redução de seu número e de suas línguas em cerca de 90%.
Embora, do ponto de vista dos colonos e de suas nações-Estados, a reivindicação das terras e das línguas tribais possa parecer assunto periférico, essas vozes expressam um vasto setor da história humana e alcançam certos aspectos de todos nós. Poderia parecer também que as reivindicações tribais não passam de apelos anacrônicos contra uma irreversível modernidade.
No entanto, os povos tribais modernos não estão sugerindo uma volta ao passado. Pelo contrário, o que buscam é possuir seus próprios recursos para prosperar no presente. Com as terras e as línguas que por certo lhes pertencem, eles podem viver e desenvolver todas as forças tanto de sua cultura como de sua saúde individual.
Isto é verdade para Nunavut, o novo território dos inuit (esquimós) dentro do Canadá, bem como para o acordo dos jomani (bosquímanos) com a África do Sul, no Kalahari Sul. Mesmo na marginalização a que foram relegados em modernas nações-Estados, os povos tribais precisam viver sua própria vida, com seus próprios valores, como todos.
- HUGH BRODY é antropólogo e escritor que viveu com comunidades indígenas nas regiões ártica e subártica. (IPS/Index)





