Povos indígenas do Rio Tibagi - Cecília Maria Vieira Helm
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de dezembro de 1998
Cecília Maria Vieira Helm 
Há cerca de uma ano, a Coordenadoria de Impactos Ambientais da Copel procurou os nossos serviços profissionais, para a elaboração de laudo antropológico sobre Os Povos Indígenas da Bacia do Rio Tibagi e os Projetos das Usinas Hidrelétricas. Aceitamos a tarefa de realizar uma etnografia densa sobre os kaingang e os guarani que vivem tradicionalmente no Rio Tibagi e que somam 2.100 índios.
Seria necessário estudar os seus sistemas organizativos, a maneira de viver junto aos rios e as matas, a localização e a configuração de suas aldeias e cemitérios, a dependência da sociedade nacional, a organização da produção, o trabalho temporário em sítios e fazendas, na condição de diaristas e a produção de seus artesanatos, colocada no mercado regional, através do deslocamento para as cidades, em acampamentos que erguem, principalmente em Londrina, para a venda da produção familiar de objetos de taquara.
O Tibagi foi analisado como território indígena, onde se processam as relações históricas do contato, muitas vezes conflitivas entre colonizadores, intrusos e índios. Ele é considerado um dos rios mais importantes e extensos do Paraná. Para os índios, o rio e seus afluentes integram o seu território. Eles têm uma relação forte com os rios e com as matas, que fazem parte do patrimônio cultural, simbólico e natural desses povos.
Coletamos e registramos as representações dos kaigang e dos guarani sobre o Rio Tibagi. Fazer antropologia é um ato político. Entendemos que a nossa tarefa nem sempre fácil, tem sido a de informar os povos indígenas, os seus líderes, os seus intelectuais, todos, sobre os projetos da construção das sete usinas hidrelétricas no Tibagi. Duas, pelo menos, se aprovadas e implantadas, irão causar impactos sociais, ambientais e cumulativos.
Muitas informações foram repassadas aos índios em reuniões e entrevistas que realizamos nas sedes de suas escolas. Recorremos aos professores indígenas para esclarecimentos e para trocar conhecimentos sobre as usinas e seus impactos globais na Bacia do Tibagi e para as sociedades indígenas. Foi produzido um livrinho sobre o Tibagi, em que os professores indígenas escreveram as suas preocupações e ansiedades sobre o projeto da Copel.
Temos repassado todas as informações disponíveis, para que os índios fiquem em alerta e possam tomar decisões. A manifestação democrática deve ocorrer. O diálogo interétnico está aberto e se processando no Tibagi.
A nossa postura política, apesar de serem angustiantes estas questões, não é a da avestruz. Imobilismo confunde-se com a omissão, escreveu Ramos, e a omissão em nada contribui para enfrentar contradições e a angústia que elas geram. Devemos alertar os indígenas para as desvantagens e as vantagens do projeto da Copel, mostrar a arena política que é o campo do projeto, com um número enorme de personagens e posturas e interesses os mais antagônicos.
Os índios da América do Sul, incluídos os do Paraná, clamam por autonomia, pelo reconhecimento de sua condição de povos singulares, em estados pluriétnicos. A nossa exemplar Constituição de 88 lhes garante o direito de serem ouvidos, quando são traçados projetos para a exploração de recursos hídricos em seus territórios. Não cabe ao antropólogo tomar decisões pelos índios ou bancar o D. Quixote. Deve sim, ser crítico e fazer antropologia com ética e competência.
- CECÍLIA MARIA VIEIRA HELM é professora universitária aposentada, pesquisadora do CNPq e vice-presidente da Associção Latino-Americana de Antropologia em Curitiba


