Caveira-rolante, mulher-lesma, ente dos olhos postiços. Personagens totalmente desconhecidos para a maioria da população brasileira, mas presentes nas histórias contadas nas aldeias indígenas. E que agora podem ser conferidas em livros escritos pelos próprios índios.
Daniel Munduruku é um desses autores. Formado em filosofia com licenciatura em História e Psicologia e doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP), ele escreveu vários livros de temática indígena. As obras dele já foram premiadas no Brasil e no exterior. Atualmente, preside o Instituto Indígena Brasileiro para Propriedade Intelectual (Inbrapi), que defende os conhecimentos tradicionais dos povos indígenas. Seu livro ''Meu avô Apolinário'' foi escolhido pela Unesco para receber menção honrosa no Prêmio Literatura para Crianças e Jovens na Questão da Tolerância.
Nesta entrevista à FOLHA ele fala sobre a miscigenação de culturas e sobre o processo de produção das obras. ''O Brasil precisa descobrir que existimos e que estamos presentes em todo o território nacional. E que iremos ficar'', ressalta.
O índio sempre foi um personagem na história escrita pelos brancos. Seus livros são uma forma de mostrar o outro lado?
Os povos indígenas estão começando a se tornar protagonistas de sua própria história. Até algum tempo atrás eram os outros que falavam por nós. Agora queremos ser nossos próprios porta-vozes.
Vários outros indígenas estão se dedicando a escrever livros ou produzir peças de mídia. Qual o objetivo dessas produções?
Nos mostrar para a sociedade brasileira. O Brasil precisa descobrir que existimos e que estamos presentes em todo o território nacional. E que iremos ficar. É por isso que o número de escritores indígenas tem aumentado, pois há um interesse dessas comunidades em se tornarem conhecidas. É, de certa forma, uma estratégia de sobrevivência.
Quais os critérios para escolher as histórias que se tornarão livros?
Depende muito das circunstâncias. Eu me considero um cronista e por isso muitas histórias me são sugeridas no cotidiano. Claro que há projetos que desenvolvo recontando histórias tradicionais e livros informativos. Isso quer dizer que eu ''passeio'' por diversos estilos literários (romance, crônica, romance histórico, informativos, paradidáticos).
Como o senhor se sente tendo livros indicados para leitura em colégios públicos e particulares?
Literalmente feliz. É um reconhecimento do meu trabalho. Escolas escolhem livros pela qualidade e isso me dá uma sensação boa de que estamos encontrando um cantinho na sociedade para lançarmos nossa semente de solidariedade, inclusão, respeito.
Hoje as aldeias têm acesso a TV, rádio e várias outras ferramentas pertencentes ao universo dos brancos. Como as crianças e jovens indígenas têm reagido a isso?
As tecnologias são uma realidade nas comunidades indígenas e não dá para medir qual o impacto que elas terão nas novas gerações. O que acredito é que esta juventude que será educada pelas diversas mídias terá que ser muito criativa para poder aliar o tradicional e o moderno. Não vejo a utilização das diferentes tecnologias como inimiga dos povos indígenas. A história tem mostrado que nossos povos têm discernimento suficiente para absorver o novo sem abrir mão do tradicional.
O senhor acredita que a mistura de culturas deve existir? Quanto a cultura indígena pode se abrir para a cultura dos brancos?
A cultura indígena nunca esteve fechada para os ''brancos''. O que acontece é que nossas sociedades têm peculiaridades que não se adequam ao estilo ocidental. Sempre houve uma invasão sobre nossas culturas e ainda assim nos dispusemos a aceitar o diferente. Sempre houve um esforço nosso em entender o Brasil, mas o Brasil fez muito pouco para entender nossas culturas. Acho que ambos precisam se abrir para receber o que cada uma pode oferecer para a outra.
Sustentabilidade e consciência ambiental estão em voga hoje. A preocupação com o meio ambiente já é inerente ao índio. O que vocês podem ensinar ao povo branco sobre respeito à natureza?
Não existe um povo branco, um negro e um índio. O que existe são humanidades que se desenvolveram conforme as condições geográficas permitiam. Se pensarmos que os europeus de alguns milênios atrás tiveram as mesmas condições de manter o ambiente e decidiram não fazê-lo, decidiram destruir o meio em que viviam em nome do conforto e do bem-estar, iremos perceber que os indígenas de hoje tendem a ser (con)vencidos a abrirem mão de suas próprias convicções em nome deste mesmo progresso e desenvolvimento que impede que o diferente sobreviva.
A sustentabilidade defendida por nossos povos é, de certa forma, a garantia de sobrevivência para todos os outros grupos humanos que, neste momento, se negam a viver de maneira simples encantados que são pela tecnologia e pelo progresso. O Brasil é considerado um país megabiodiverso graças à insistente teimosia de nossos povos indígenas e não duvido que nosso país será uma grande reserva verde num futuro próximo pela força desta teimosia. O Brasil será um gigante graças àqueles que souberem viver a simplicidade. Parece contraditório, mas é apenas sabedoria.

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