Potencial cognitivo é novo campo a ser mapeado pela ciência
Para o neurocientista brasileiro Sidarta Ribeiro, que investiga os mecanismos celulares e moleculares do sono e dos sonhos no Departamento de Neurobiologia do Centro Médico da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, o potencial cognitivo dos sonhos lúcidos é um novo campo a ser mapeado pela ciência.
''O que a ciência pode descobrir são maneiras mais simples de controlar o sonho lúcido, que é um estágio superREM. Teríamos um controle forte sobre a ativação do córtex pré-frontal, ligado ao ego.
A expressão de genes ligados à formação de memórias se dá nos primeiros segundos do sonho REM. Sonhos longos são coisa de mamíferos, e criam funções adicionais. Se puderem escalar o Everest toda noite sem medo de cair, as pessoas vão parar de ver televisão para sonhar. Isso me parece ótimo!'', vibra o neurocientista.
Num trabalho publicado na última edição da revista ''Multiciência'', da Unicamp, Ribeiro discute como os sonhos evoluíram. Segundo o cientista, o sono de ondas lentas tem origem num estado de repouso e tranquilidade dos répteis. A função da vigília seria consolidar a memória dependente do cálcio pela reverberação da atividade neuronal. O passo seguinte é a evolução em pássaros e mamíferos do sono REM, caracterizado como o estágio seguinte ao de ondas lentas em que a atividade cerebral é intensa e a conexão sensorial é inexistente. Embora dure poucos segundos, esse tipo de sono consegue ativar os genes ligados à plasticidade sináptica e consolidar a memória.
A partir daí, os mamíferos passaram a permanecer no sono REM por períodos cada vez mais longos, esticando a reverberação neuronal. Em vez de consolidar a memória, essa nova modalidade de sono passou a reconstruí-la. Essa reorganização das experiências vividas deu origem aos sonhos como narrativas que se desdobram no tempo. ''Eles são um subproduto da reverberação neuronal durante o sono REM prolongado. Devido a tal reverberação não-estacionária, os sonhos são sequências hiper-associativas de memórias fragmentadas que simulam eventos passados e expectativas futuras, gerando possíveis soluções para os desafios cognitivos enfrentados pelo sonhador'', escreveu o pesquisador.
O sono é o momento em que as pessoas não estão expostas às experiências sensoriais, então o cérebro pode organizar as memórias. É nessa hora em que ele diz ''não preciso armazenar o rosto do homem do elevador, mas o teorema de Pitágoras preciso manter''. Portanto, o aprendizado depende de três fases: acordada, quando somos apresentados às imagens; ondas lentas, quando as imagens reverberam; e sono REM, quando se solidificam.(Agência Globo)





