Potência emergente
A sigla PCB, que no passado recente designava o respeitável Partido Comunista Brasileiro, acaba de ser ressuscitada pela contramão. Consta do Relatório do Banco Mundial para designar nova modalidade de índice de desenvolvimento: o Produto Criminoso Bruto.
Trata-se de algo simples: a aferição do montante obtido no universo da economia da corrupção e da violência. Não se trata de uma excentricidade. O Banco Mundial apurou que esse dinheiro, hoje, é de tal volume que representa o oitavo PIB do mundo (maior, portanto, que o do Brasil). Pior: caminha celeremente para ser o sétimo, o que lhe garantiria, se o critério fosse estritamente contábil, assento no G-7, o grupo dos sete países mais ricos do mundo, no lugar do Canadá.
A economia criminosa cresce hoje, em todo o mundo, três vezes mais que a brasileira. Enquanto esta está empacada em 2% ao ano, o mundo do crime cresce a 7% ao ano. A cada década, dobra o PCB, situação de dar inveja mesmo aos países ricos, nestes tempos bicudos de recessão e desemprego. Importante notar que esses números do Banco Mundial devem ser conservadores, na medida em que é extremamente imprecisa a delimitação do universo do crime.
Sabe-se que o narcotráfico, por exemplo, sozinho, movimenta algo em torno de US$ 500 bilhões - meio trilhão de dólares! -, cerca de cinco vezes a dívida externa brasileira. Mas esse é o chamado crime explícito, aquele que não usa de subterfúgios e vai direto ao ponto. E o crime do colarinho branco, como mapeá-lo e quantificá-lo?
Quanto, contado em milhões de dólares, rolou no escândalo dos precatórios? E em falências bancárias fraudulentas, como as do Banco Nacional e Econômico? Casos como esses são contabilizados? Doações eleitorais irregulares estão longe de ser fenômeno nacional. Basta ver as numerosas denúncias nesse sentido referentes à campanha eleitoral de Bill Clinton ou à do Japão, para ficar em dois exemplos recentes.
Quando depunha na CPI dos Títulos, no Senado, Wagner Ramos descreveu uma das rotas da lavagem de dinheiro no exterior. Foi então interpelado por um senador, que lhe perguntou desde quando tinha conhecimento daquela trajetória. Respondeu à queima-roupa: ‘‘Desde o mesmo tempo que V. Exa.’’. Alguém já pensou seriamente em mapear a origem dos capitais que aportam ao país no período de campanha eleitoral?
Quanto custa eleger um deputado, um governador ou um presidente da República? Quem banca, como banca e o que cobra por bancar? São respostas mais ou menos evidentes, muito embora ninguém esteja exatamente preocupado em dá-las. É improvável que a contabilidade desse universo conste das planilhas dos economistas do Banco Mundial, incumbidos de quantificar o PCB. Se a pesquisa for mesmo a fundo, é possível que constatem tratar-se simplemsente não do oitavo, mas do primeiro PIB do planeta.
- RUY FABIANO é jornalista em Brasília.

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