POSSE E VINGANÇA - Quando o amor vira doença
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quinta-feira, 08 de novembro de 2007
Marco Feltrin<br>Reportagem Local 
Tudo em excesso faz mal. Até mesmo o amor, o mais nobre e puro dos sentimentos, consegue se transformar em sofrimento se somado à posse, ao ciúme e ao controle total do parceiro. Em casos extremos, pode até levar a pessoa a assassinar o ser amado para não vê-lo com outra, o chamado crime passional. Mas o que faz a pessoa chegar a este ponto? Em entrevista à FOLHA, a psicóloga Maria Cecília Malaquias diz que as pessoas que amam demais tentam vigiar o parceiro e acabam perdendo totalmente o controle sobre os próprios sentimentos.
Como identificar que o sentimento passou do estágio saudável para o doentio?
Normalmente, quando as pessoas têm qualquer tipo de disfunção na área emocional, são os outros que percebem primeiro. Para a pessoa aquilo é normal, então para ela perceber tem que estar em um nível bem mais elevado. A pessoa que se apaixona está com alguém para buscar a felicidade. Neste tipo de amor doentio, a característica é o contrário, é o sofrimento. A pessoa passa a querer exclusividade do outro, saber o que o outro sente, adivinhar o pensamento dele. E aí ela começa a sofrer, porque não consegue controlar a outra pessoa nem o que ela mesmo sente.
O que o parceiro pode fazer ao perceber esses sintomas?
Para tudo existe tratamento. Se a pessoa está realmente envolvida, vai se preocupar com o bem estar próprio e do parceiro. Vai buscar um profissional da área, um tratamento psiquiátrico para medicar e um tratamento psicólogico para apoiar e fazer com que a pessoa entenda que está fora do normal.
Neste estágio a conversa entre o casal nem adianta mais?
Para levar a pessoa ao tratamento precisa ter a conversa. E se a pessoa ama tanto, o parceiro pode pedir esta prova de amor. Tem que usar este veneno a favor.
É possível comparar o amor doentio a um vício como o do álcool?
Sim, porque a consequência acaba sendo a mesma. Eu não consigo viver sem, você é tudo para mim, você é minha vida. Se pegarmos alguém viciado em álcool, ele vai acordar de manhã e a primeira coisa que vai pensar é na bebida, porque ele precisa daquilo. Assim como qualquer tipo de droga, é uma condição de sobrevivência. Para as pessoas que sofrem do amor doentio, a presença da pessoa amada também é uma condição de sobrevivência. O comportamento dela em relação ao outro é de tanta obsessão e compulsão quanto a pessoa que busca o álcool ou outro tipo de droga.
Tem uma idade mais comum para estes casos?
Como na maioria das doenças psiquiátricas, existe todo um componente hereditário, do ambiente. Já existe uma predisposição tanto do organismo quanto do ambiente. Começou a namorar com 12 anos, pode ser o momento. Uma pessoa com 30 anos, casada, com um relacionamento estável mas que começa a ter desconfiança, também pode acontecer.
O amor doentio é mais comum nas mulheres?
Não existe uma relação direta. A forma de expressão das mulheres chama mais a atenção. Ela vai mais atrás, faz mais barraco. Os homens já têm uma linha de vingança moral. Vai lá e bate, mata. Algo mais intenso mas com uma frequência menor.
Quando este amor chega ao extremo é grande o risco de um crime passional?
Com certeza. Infelizmente são casos comuns, porque existe uma linha muito tênue entre amor e ódio. O amor tem dois lados, um todo inteligente, sábio, astuto e outro que é completamente capaz de ser ardiloso, vingativo e cruel. São dois extremos. Ou gosto muito e cuido ou vou odiar a tal ponto de afastar esta pessoa do convívio dos outros. Se eu tenho essa pessoa para mim, vai ser o máximo. Se não tenho, não quero que ninguém mais tenha. É aí que acaba caindo no crime passional.


