Pós-Modernidade e Idade Média em 2000 - Padre Roque Zimmermann
Padre Roque Zimmermann
Dizer que os problemas brasileiros são muitos e graves não é novidade. Muito pior, não só já não chocam a mais ninguém como se integraram ao nosso cotidiano. De tanto ouvir falar em desemprego, fome, falta de moradia, hospitais que não atendem, fila para pôr o filho em escola pública, assaltos, estupros e tantas outras misérias mais, acabamos em não dar importância aos descalabros que nos assolam, sendo capazes de nos atacar na esquina mais próxima da vida.
A descrença se generaliza. Instituições e pessoas são vistas com desconfiança. Cresce entre o povo, embora a imensa maioria não o conheça, o paradigma de Hobbes, filósofo que viveu entre os séculos XVI e XVII: O homem tornou-se o lobo do próprio homem e A vida é uma guerra de todos contra todos.
Vendo o tipo e a dimensão das ações que tramitam no Congresso, no Judiciário e no Executivo, chego a pensar que Hobbes é nosso contemporâneo e sua obra um denúncia sobre a sociedade atual. As disputas são de toda ordem, com desvantagens sempre para os mais desguarnecidos. Em geral, de forma esmagadora, os mais pobres. Deles se roubou até a capacidade de vislumbrar uma possível saída e a esperança de poder recorrer a alguém. Cristaliza-se o consenso da desesperança.
No decorrer da história engendraram-se múltiplas formas organizativas nas quais o povo nunca foi levado em conta. Ou, se dela fez parte, o foi como massa de manobra para auxiliar na tomada do poder ou como fonte de espoliação das riquezas por ele produzidas.
Na era pós-moderna, essa dominação assumiu características peculiares. No lugar da relação senhor/vassalo da Idade Média outras foram criadas. A mais recente é a de mercado/consumidor. Esta, aparentemente, nada tem a ver com a forma de dominação medieval. Mas pelos feitos que o sistema produz, como a miséria em todos os setores da vida humana, é possível deduzir que a perversidade dos senhores apenas mudou na aparência. E não sei se na última, a forma não é pior do que na anterior.
O shopping é apontado como o símbolo maior de nossa sociedade consumista. Entretanto, o fascínio dos shoppings para a maioria da população é como bolha de sabão. Reluz ao brilho do sol e sobre o embalo do vento manso. Mas é frágil. Num instante, some. Esta é, mais ou menos, a sensação do pobre frente aos bens de consumo. A falta de dinheiro funciona como vento forte que destrói o sonho no instante mesmo em que nasce. Nem por isso o mercado deixa de provocar em todos o desejo da posse do objeto habilmente ornado em atraente vitrine.
A criação do desejo e o despertar de necessidade, sempre cambiantes, são forma de estabelecer o domínio sobre as pessoas. Para os 30% da população que o senhor mercado elegeu como os que têm direito aos seus bens e a eles deu condições de comprá-los domina-os pela necessidade constantemente recriada de comprar outros objetos, até para estar na moda. Sobram os demais, os 70% hoje considerados como os sobrantes. Neles a dominação acontece pela expectativa que se cria de uma dia poder vencer na vida e fazer parte do grupo seleto e, assim, desfrutar da regalia reservada aos poucos com poder de compra.
As megafusões que estão ocorrendo no primeiro mundo, nas áreas de informática, energia, finanças, comunicação, medicamentos, insumos e sementes agrícolas, por exemplo, apontam para um domínio ainda não mensurado desses grupos sobre a humanidade. Tudo leva a crer que cada vez mais o Estado e a Nação, um enquanto parcela representativa regional e o outro como referência de identidade cultural, perdem força e cedem espaço a grupos econômicos de alcance mundial. Basta ver a relação dos países do terceiro mundo com o sistema financeiro internacional. E, também, os processos de privatização das estatais e a venda de empresas privadas brasileiras para congêneres estrangeiras. Quase todo dia transfere-se mais poder aos megacapitais transnacionais.
Esta situação nos leva de volta ao modelo medieval. Uns poucos senhores ladeados por uma horda de vassalos. A diferença parece estar na dimensão das glebas e no modo de controlá-las. Hoje elas têm proporções mundiais e são monitoradas por alta tecnologia. Entretanto, a conduta do povo em relação aos dominadores, e por estes alimentada, parece não diferir muito. Descrença no poder, gerada pela incapacidade de compreender a relação entre dominadores/dominados, construída quase sempre à base de corrupção. Medo da fera que o semelhante representa enquanto competidor na luta pela subsistência. E, finalmente, a ilusão provocada e nutrida frente à possibilidade de uma dia fazer parte, ainda que como bobo da corte, do restrito grupo do poder.





