A globalização em suas dimensões socioeconômicas, culturais e tecnológicas provocou mudanças importantes nos mais diversos contextos sociais. A valorização da novidade, do efêmero, da imagem, do prazer a qualquer preço são características da sociedade pós-moderna.

''Vivemos um momento de grande individualismo, caracterizado pelo distanciamento progressivo entre as pessoas e o empobrecimento dos vínculos. É um peso levar seus questionamentos, angústias para o outro. As pessoas estão mais interessadas em sua performance'', analisa a psicóloga Maria Ester Falaschi.

E quais são os impactos destas transformações nas relações familiares? ''Pais e filhos reproduzem o modelo contemporâneo de valorização do ter em detrimento do ser. Os pais passam muito tempo fora de casa e quando voltam do trabalho, cansados, preocupam-se apenas em suprir os filhos, e não a entrar em contato efetivo com eles'', critica. Por isso, o contato com a família é tão importante.

E é justamente o tema ''Relações familiares: como manter o diálogo e a proximidade com quem amamos'', que será apresentado por Maria Ester na próxima sexta-feira, dentro da programação da VI Semana de Valorização da Vida de Londrina, realizada pelo Centro de Valorização da Vida (CVV). O evento, que será realizado no auditório do Senac, das 19 às 22 horas, é gratuito e aberto à comunidade.

De que forma a pós-modernidade influencia no processo de construção da família e suas relações?
Com pouco tempo para conviver com os filhos, os pais acabam atendendo a esta demanda social do ter - ter poder, ter status, ter bom emprego, ter condições de comprar. Ter é mais importante que caráter, ética, amizades consistentes. Os filhos vêm reproduzindo este modelo - escola, natação, inglês, karatê. Os pais, em vez de fazer o papel deles, que é o de cuidar, dar limites, simplesmente tentam suprir os filhos. É a roupa, a boneca, o tênis da moda... e depois vem o carro, a faculdade. Não há uma informação efetiva sobre a vida objetiva e subjetiva dos filhos. Os pais reproduzem a demanda do capital - ter prazer, bem-estar e estar isento de angústia todo o tempo. Contudo, a frustração é importante para a construção de um psiquismo saudável.

Quais são as consequências da ausência de limites na educação dos filhos?
A pessoa que cresce sem limites, com baixa tolerância à frustração, não desenvolve empatia pelo outro. Nos casos mais graves, pode desenvolver psicopatias e aí vemos estas matanças por motivos banais. A desconsideração pelo outro é total.

Nunca se falou e estudou tanto sobre a importância da família para a formação do indivíduo. Contudo, os pais parecem cada vez mais desorientados em relação à educação dos filhos. Qual é o problema?
Faltam referências educacionais. Teu pai, tua mãe, vão te dar o modelo para criar seus filhos. Se não vem modelo nenhum, aí eu busco os livros, as revistas. Confunde-se muito a questão do afeto com a materialidade. Afeto é beijar, abraçar? É, mas não é só isso. Afeto não é só afago. Afeto é ensinar alguém a se desenvolver. Se você conversar com pessoas mais antigas, às vezes não havia muito contato físico, mas aquele pai, aquela mãe, tinham uma representação fortíssima. Por exemplo, na casa destas pessoas fotos antiquíssimas de pai, mãe, até avós, ocupam lugar de destaque na sala. Eles têm uma referência tão forte que permanecem em um cômodo de destaque.

Como desenvolver o diálogo e a proximidade com quem amamos?
As pessoas entendem que a família adequada é a família harmoniosa, porque faz parte do modelo de ausência de conflitos, de angústia. É o desejo, o prazer, o bem-estar ''full time''. É a família da propaganda de margarina. Mentira. A família boa tem conflito, divergência. Família boa tem dois chefes lá na frente colocando ordem em uma turminha que está lá atrás. Família boa é aquela que dá limites, orientações, e muitas vezes frustrando aqueles adolescentes que querem tudo o tempo todo. Pessoas devem dar-se ao direito de serem falíveis, incompletas, angustiadas e terem efetivamente questões não respondidas, e que a partir disso possam se aproximar do outro. E entender que o outro também te frustrará, chateará, irritará. E que amar é isso: o pacote completo.

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