PÓS-MODERNIDADE - Violência é fruto da omissão
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quinta-feira, 10 de junho de 2010
Mariana Guerin<br>Reportagem Local 
''Omissão é uma forma de violência.'' É assim que a assistente social Denise Kopp Zugman, presidente da Associação Paranaense de Terapia Familiar, define a onda de agressões cotidianas que estampam as capas dos jornais e invadem diariamente as casas pelas ondas do rádio e da televisão. ''A sociedade produz violência o tempo todo. Ela pinga no sistema cultural, mas só nos assustamos quando ela vem em cachoeira'', filosofa.
Para Denise, que trabalha há mais de três décadas na recuperação de dependentes de álcool e drogas, a pós-modernidade tem influência direta nos atos violentos cometidos no ambiente familiar. Ela acredita que a ''cultura do parecer ter'' que predomina hoje é em grande parte responsável pela violência, uma vez que o sexo e o uso de drogas estão ''banalizados.'' ''Também vivemos um individualismo exacerbado, que nada mais é que a expressão da violência. A violência não passa de puro impulso. Todo mundo tem impulsos, o problema é o que cada um faz com o que sente'', alerta.
Como você avalia os arranjos familiares atuais?
Antes de analisarmos a família, é preciso contextualizá-la. Hoje, dificilmente paramos para pensar em que cultura vivemos e apenas refletir sobre isso já resolveria grande parte dos problemas. O mundo atual esqueceu a diferença entre o que é essencial e o que é fundamental na vida de um indivíduo, criando seres padronizados. Se na antiguidade vivíamos a cultura do ser e na modernidade, a cultura do ter, hoje experimentamos a cultura do parecer ter, a falsificação do eu. É o que os pais estão ensinando aos filhos, que cada vez mais vivem rotinas de adultos. Ser criança já não significa ter infância. E a infância deveria ser a fase mais perfeita da vida, quando a criança é protegida do mundo do trabalho.
Quais as principais mudanças de comportamento da vida pós-moderna?
Na sociedade pós-moderna ocorre a morte do futuro, com a cultura do prazer imediato. É nesse contexto que entram as drogas. Se antes as pessoas usavam drogas para se sentir bem, hoje elas usam para se sentir superbem, para ter um ''plus''. Há ainda uma padronização dos desejos, que tornam-se necessidades, mas necessidades falsas. Já os mitos são criados para vender e o homem vive a serviço da economia. Hoje, os ídolos são jogadores de futebol e modelos, antes eram pensadores e artistas. Também perdeu-se a dimensão divina e a sociedade atual é a sociedade do medo, vivendo a sensação do não futuro.
Neste contexto, onde se encaixa a violência?
A vida perdeu sua naturalidade e convivemos, diariamente, com uma violência subliminar, na qual tudo é banalizado, desde as brincadeiras de infância até o sexo e o consumo de drogas, lícitas ou não. Também vivemos um individualismo exacerbado, que nada mais é que a expressão da violência. A violência não passa de puro impulso. Todo mundo tem impulsos, o problema é o que cada um faz com o que sente. Atualmente, há uma supervalorização da criança que, em alguns casos, é quem manda na família. E os pais não percebem que estão violentando os próprios filhos diariamente, já que as crianças não possuem desenvolvimento emocional suficiente para arcar com tamanha responsabilidade.
Qual a saída, então, para evitar a violência?
A saída é voltar a refletir. Hoje, delegamos tudo ao Estado, quando deveríamos ter um senso de compromisso para com o próximo, pois tudo o que o outro faz reflete em nós. Nós construimos a sociedade e ela nos constrói. Reconectar-se com a natureza, ter princípios éticos e compaixão com o próximo e, principalmente, denunciar são medidas fundamentais para evitar qualquer tipo de violência. Devo me perguntar como eu me relaciono com o outro, com o que eu não compactuo mais, lembrando que um ato violento só acontece quando há um contexto unindo vítima e agressor. A violência é sempre uma relação de poder e hierarquia, que ocorre em escalada. E é responsabilidade de toda a sociedade.


