'PORTO SEGURO' Sonho do emprego público atrai número cada vez maior
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domingo, 19 de janeiro de 2003
Ana Setti<br> Reportagem Local 
Especialistas em administração pública estimam que 2003 será generoso com quem procura emprego nas esferas federal, estadual e municipal do Governo. A previsão é de que cerca de 98 mil vagas públicas em áreas distintas como Planejamento, Trabalho, Previdência, Segurança, Meio Ambiente, entre outras, sejam disponibilizadas, abrindo espaço para quem almeja ganhar, em média, de R$ 500,00 a R$ 5.000,00, dependendo esse valor das exigências de escolaridade e das especificidades da função escolhida.
Há, no entanto, quem ponha água fria nessa fervura. Para Ivaldo Luiz Campagnolli, proprietário da Gradual Cursos, em Londrina, escola especializada na preparação de candidatos para concursos, ''o Poder Público não tem dinheiro suficiente para abrir esse número de vagas''. O mais provável, segundo acredita, ''é que surjam de 20 mil a 30 mil vagas este ano, muitas delas na área de arrecadação de tributos, que é uma das que mais se ressentem, no momento, da falta de funcionários''.
Mas essa constatação não esmorece o ânimo de quem dedica de 6 a 8 horas diárias aos estudos, como autodidata, e cerca de 15 horas semanais a cursos especializados, tendo como objetivo passar em concurso público. Dalton Ramos Legnaioli, 36 anos, José Augusto Brasil, 46, e Messias Nonato, 34, são exemplos de quem busca, com obstinação, a concretização desse sonho, que tem muito menos a ver, como se poderia pensar, com bons salários, e muito mais com uma palavrinha que se tornou mágica em tempos de crise, a ''estabilidade''.
Com base na observação de seus muitos alunos, Ivaldo assegura que é isso mesmo.''Muitos passaram pela experiência da demissão injustificada, depois de vários anos de dedicação ao trabalho, ou viram isso acontecer com colegas'', comenta, ''e não querem sentir de novo a mesma insegurança''. À estabilidade sonhada associa-se também, no caso do serviço público, uma maior flexibilidade em relação à idade. Como explica Ivaldo, ''salvo em situações específicas, as vagas estão abertas a candidatos de 18 a 65 anos, e também a deficientes, em porcentagens proporcionais''.
Messias, que veio de Penápolis (São Paulo) para Londrina há 12 anos, formou-se em Economia na UEL. Nesse período, trabalhou numa empresa de vigilância, adaptando sua vida pessoal a horários nada tradicionais. ''Dei muito de mim à empresa'', conta, ''mas quando ela entrou em concordata e acabou, percebi que não tinham nada para me dar em troca''. Ficou, então, um vazio, que ele preencheu com a idéia de investir em si mesmo, passando a estudar e a se preparar para enfrentar um concurso público.
Um ''trauma'' parecido inspirou Augusto, formado em Administração, a procurar uma vaga no funcionalismo público. ''Trabalhava num banco estrangeiro'', comenta, justificando em poucas palavras sua atual condição de desempregado. Já Dalton, de São Paulo, também formado em Administração e que mora há 1 ano em Londrina, onde trabalha como autônomo, vê na carreira pública, além da estabilidade, um outro atrativo: poder. Não o poder da autoridade, conforme esclarece, mas aquele que advém do respeito, do reconhecimento pelo trabalho realizado.
Os três já tentaram vários concursos, mas o que perceberam é que não se trata de uma tarefa fácil. Em sua opinião, é muito mais tranquilo enfrentar um vestibular do que um concurso. ''Enquanto nos vestibulares mais disputados, como Odontologia e Medicina, a média de candidatos por vaga gira em torno de 60, a de um concurso chega a 300'', contabiliza Dalton. O que faz a diferença, segundo acreditam, é a preparação do candidato. ''É mais fácil ganhar na loto do que passar em um concurso público só contando com a sorte'', asseguram.
Muito estudo, portanto, e apoio familiar, para compreender e dar estrutura a tanta dedicação, revelam-se essenciais na vida de um candidato ao funcionalismo. E de acordo com Messias, a partir da experiência que acumulou ao enfrentar vários concursos, isso exige muito investimento. O tempo médio de preparação de um candidato ''é de 1 a 2 anos''. Levando-se em conta que, nesse período, será preciso comprar livros, pagar cursos, fazer inscrições (em torno de R$ 70,00 por concurso) e ter despesas com viagens (para concursos federais e estaduais), ele calcula que um candidato precisará investir, ao longo do tempo de preparação, ''algo em torno de R$ 2.000,00 a R$ 2.500,00''.
Curiosamente, o desafio dos concursos públicos pode trazer muito mais do que uma simples aprovação. Como revela Messias, tanto estudo acaba despertando ''mais gosto pela leitura, maior curiosidade intelectual e, devido ao conhecimento aprofundado das leis, uma ampla consciência sobre os direitos do cidadão''.


