Porque importar é um bom negócio - Abelardo Lupion
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 13 de abril de 1998
Abelardo Lupion 
Prazos longos e juros baixos oferecidos pelos concorrentes do Brasil na agricultura, que querem colocar seus produtos em nosso mercado, estão inviabilizando a agropecuária brasileira. Entenda, aqui, porque comprar no exterior é um bom negócio para o importador. Mas um péssimo negócio ao país, a médio e longo prazos. Vamos ao exemplo do trigo, onde os moinhos brasileiros acertaram importações no valor de US$ 421 milhões com prazo acima de 360 dias.
Lá fora, esse dinheiro tem um custo equivalente à variação cambial mais taxas de juros de 6% a 8% ao ano. O trigo importado vira farinha que, colocada no mercado, rende dinheiro à vista. Como o prazo de pagamento do trigo que originou a farinha é superior a um ano, os moageiros podem aplicar esse dinheiro no mercado financeiro brasileiro, que rende no mínimo 26,82%, considerando uma taxa média de juros de 2% ao mês. Quem entende de mercado financeiro sabe que o rendimento pode ser ainda muito maior, de acordo com o tipo de investimento. Fazendo as contas, vemos que os US$ 421 milhões custariam cerca de US$ 50 milhões aos importadores. Mas aqui dentro rendem cerca de US$ 70 milhões se aplicados na poupança, ou US$ 113 milhões se aplicados no mercado financeiro. Uma receita extra de US$ 20 milhões se aos moageiros preferirem a segurança absoluta dos juros da poupança, ou de US$ 63 milhões se optarem por investimentos de risco. Dinheiro suficiente para pagar à vista 410 mil toneladas de trigo, ou 17% da produção brasileira.
Agora vamos ver os juros pagos pelos agricultores brasileiros que financiam o plantio de sua safra: 16% em média, já que os agricultores obtêm apenas parte dos recursos necessários, a juros de 9,5% ao ano, devendo completar o restante com recursos próprios ou do mercado financeiro. Essa é a descarada injustiça da nossa política econômica, que privilegia a especulação e maltrata os agricultores, escravos dos sistema financeiro. Felizmente, o privilégio da especulação sobre o trabalho honrado está com os dias contados, graças à iminente aprovação, pela Câmara Federal, de projeto de lei de minha autoria, que obriga o pagamento das importações de alimentos num prazo de 30 dias.
A restrição às importações é uma das muitas medidas necessárias para estabelecer algum equilíbrio nas relações competitivas entre o Brasil e seus parceiros. É preciso preservar, mesmo a duras penas, as atividades honestas de milhares de brasileiros que herdaram a nobre missão de produzir alimentos. Só alcançaremos o caminho do desenvolvimento pleno quando conseguirmos corrigir as políticas que privilegiam as jogadas financeiras dos espertos detentores do capital e penalizam a população trabalhadora. É preciso acabar de vez com as vantagens de poucos, sempre pagas pela maioria da população. Não faz tempo que o governo, privilegiando oportunismos industriais, deu sua grande contribuição para liquidar com a produção de algodão. Primeiro se importou algodão, depois o fio pronto, o tecido e, por último, as confecções. Agora se importa o trigo que podemos produzir, já se traz a farinha pronta, massas, biscoitos e outros derivados. Não podemos ser totalmente contrários às importações de alimentos, que contribuem para comparar preços e qualidade dos produtos e, assim, melhorar a indústria nacional. Somos contrários aos privilégios permitidos pela nossa economia em benefício de alguns setores, que prejudicam todo o País, tirando milhares de empregos no campo e nas cidades.
A imprensa tem trazido periodicamente exemplos de países que adotam medidas drásticas de protecionismo para manter o emprego de seus cidadãos quando setores ou atividades são ameaçadas pela indústria concorrente do exterior. Os americanos e os europeus são defensores do emprego diante da ameaça que vem de fora. Nós, infelizmente, temos nos curvado, ora diante de acordo internacionais malfeitos, ora diante de ações predatórias cometidas pela nossa própria indústria e comércio.
O que importa é defender as atividades que sempre geram renda, como a agricultura, garantindo milhares de empregos no campo, com reflexos nas indústrias de insumos nos meios urbanos e nos setores de serviços. Importar é fácil, é o caminho do lucro rápido, mas também é a forma veloz de desestabilizar os trabalhadores pelo desemprego. Precisamos ter uma visão de longo prazo, adotando medidas que garantam a manutenção dos empregos e, ao mesmo tempo, melhorem a qualidade de nossos produtos sem aumentar os custos. Ao estabelecermos limites para as importações predatórias estamos, mais do que garantindo o emprego, freiando a sagaz busca do lucro rápido e fácil daqueles que demonstram pouco compromisso com o desenvolvimento e com emprego.


