Porque é fácil enganar as pessoas
Maria Lucia Victor Barbosa
É fácil enganar as pessoas porque: 1. A maioria não possui informações necessárias para avaliar o que os outros dizem, escrevem ou fazem. 2. A maior parte precisa acreditar em determinadas idéias, capazes de fornecer a ilusão num mundo muitas vezes demasiado cruel ou desenxavido. 3. O comum da humanidade não tem convicções próprias, sendo facilmente levado pela correnteza dos fatos ou pela retórica dos discursos. 4. As criaturas são geralmente carentes psicologicamente e precisam se apegar a alguém, a alguma ideologia ou instituição, justificando tudo que lhes dê um certo apoio, mesmo que este apoio seja enganoso. 5. Os indivíduos aprendem, inclusive, por um mecanismo de imitação, e imitam seus semelhantes sem perceber se algo é falso ou verdadeiro.
Portanto, somos, como um todo, seres mal resolvidos em busca de afirmação pessoal e vantagens materiais e disto decorre a manutenção da selva humana, em que pese o homem ser capaz também de belos gestos de solidariedade, ou dotado com o dom de criar, tendo evoluído nesse final de milênio em termos tecnológicos ou científicos.
Mas como distinguir o que é autêntica solidariedade do artifício enganoso, a criatividade construtiva da tão comum criatividade destrutiva? Bem, esta distinção depende de cada indivíduo em particular, e de cada sociedade enquanto sistema cultural, e creio que a frase do economista Gunnar Myredal resume o que quero dizer: ‘‘É mais fácil governar um povo ignorante’’. Observemos, então, um episódio recente, que poderá ilustrar as considerações aqui expostas: o show do jogador Romário que deve ter comovido multidões.
Romário partiu para a França em alegre revoada junto aos demais jogadores, técnicos etc. Naquele país não treinou, limitando-se a arrastar a perna e dar entrevistas queixosas sobre sua panturrilha (termo equivalente a barriga da perna, que deve ter entrado na moda de tanto ser repetido em jornais e televisões com grande teor emocional). E os temores sobre a panturrilha de Romário devem ter causado mais preocupação no território verde-amarelo do que as longínquas bombas atômicas detonadas recentemente pela Índia e pelo Paquistão.
Finalmente, como o jogador depois de tantos chorumingos não apresentava condições físicas, ou corria o risco de não tê-las na medida em que os jogos avançassem, resolveram substituí-lo, como seria natural. Afinal, futebol é a coisa mais séria no Brasil, e Copa do Mundo equivale a uma guerra onde a honra nacional, sempre tão esmorecida diante de outras coisas, entra em campo. Portanto, não de pode facilitar.
Mas assim que Romário foi afastado, ocorreu um show de estrelismo para político nenhum botar defeito. Tão ao gosto do brasileiro, o jogador chorou e fez beicinho na televisão, sendo que no dia seguinte suas expressões de desgosto, calculadamente teatrais, estavam estampadas nas primeiras páginas dos jornais. O povo acreditou que o problema não residia na panturrilha de Romário, ou na sua manha, mas na maldade de técnicos ou na ferocidade de forças ocultas. E todos comentaram indignados o episódio, e se lamuriaram.
Mas esse caso é apenas circense, sem maiores consequências, a não ser servir de espetáculo popular e de engrandecimento do ego do jogador. A gravidade, porém surge, quando a farsa parte de representantes do povo, ou de candidatos a representantes.
Como por exemplo, pode-se citar a atitude do presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer. O deputado do PMDB, na velha linha demagógica que tanto agrada multidões, defendeu a volta da inflação em nome dos supostos benefícios que tal calamidade traria à área social. É o retorno do surrado ‘‘tudo pelo social’’, que nunca resolveu nada; pelo contrário, piorou.
A mesma cantilena pode ser observada nas hostes do candidato Lula da Silva, e, assim, um dos principais consultores econômicos do PT, Guido Mantega, utilizando-se da pseudo-certeza das pesquisas afirmou na ‘‘Gazeta Mercantil’’ que, segundo levantamento eleitoral, o povo prefere ‘‘inflação com crescimento’’. Isto, é claro, faz lembrar o pensamento do senador Roberto Campos. Segundo este, ‘‘no Brasil a burrice tem um passado glorioso e futuro promissor’’.
Sobre a inflação, alertou editorial do ‘‘O Estado de S. Paulo’’, de 4/6/98: ‘‘o que não se diz é quão grave já foi, e poderá voltar a ser, o problema da inflação, essa lapidadora da economia popular e criadora de graves problemas sociais’’. E se a campanha eleitoral do PT gosta de bater na tecla do desemprego, os adeptos de tal teoria se esquecem de explicar como seria inflação com desemprego. Se isso acontecesse, aí, sim, não haveria como resolver questões sociais. Mas será que o PT quer resolvê-las, ou teria competência para isto?
Disse o senador Antônio Carlos Magalhães que ‘‘fora da reeleição de Fernando Henrique seria o caos’’. Será que alguém prestou atenção ou entendeu o senador? Afinal, na sua maioria, os homens preferem viver de ilusão.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga.

mockup