Afirmei certa vez que no Brasil não se sabe fazer cinema, e que com exceção de algum filme melhorzinho o resto não presta. A maioria se resume em pornochanchada, violência e excesso de cenas eróticas de mau gosto. Repito, então, que o cinema brasileiro, que tem a pretensão de ser arte nem consegue ser técnica. É apenas ‘trash’.
Pois bem, nossa televisão, com a exceção da TV Cultura de São Paulo, e de um ou outro programa de outras TVs, também é ‘trash’, ou seja, lixo. E para comprovar o que se afirma, basta assistir Faustão, Silvio Santos, Gugu Liberato etc., e a grande novidade do momento, Ratinho. Como circo eletrônico (termo inventado pelo meu filho Bruno), sem a autenticidade e a arte do verdadeiro circo, essas programações oscilam entre o grotesco e o repulsivo, encantando platéias em todos os recantos do Brasil.
‘‘Ratinho Livre’’ ultrapassa os limites da cafonice e da baixaria, e por isso mesmo alcança recorde de audiência. Para culminar, Carlos Roberto Massa, vulgo Ratinho, ganha por mês segundo a revista Veja, se somados seu salário com participações em merchandising, a bagatela de 200.000 reais. Note-se que esta é uma remuneração bem diversa da que costuma receber a grande maioria dos nossos cientistas, professores, profissionais liberais, jornalistas, escritores, artistas, ou dos que se devotam a qualquer causa mais nobre. Tal constatação leva a concluir que a humanidade não está nem aí para os abnegados, os idealistas, os honestos, os refinados, os competentes, preferindo o que é ‘trash’.
Se alguém perguntar se a causa do sucesso do circo eletrônico em nosso país deriva de um fenômeno essencialmente brasileiro, que reflete uma sociedade em grande parte atrasada, por um lado pode-se dizer que sim para horror dos ufanistas. Entretanto, não somos os únicos a amar o ‘trash’, e constatei isso inúmeras vezes. Por exemplo, numa noite em que passeava distraidamente pelos canais de TV, naquela espécie de ronda pelo controle remoto, me detive por instantes num programa da Eurochannel que não deixava nada a desejar ao nosso tele-trash. Nem sei o nome do tal programa, porque segui em frente buscando um bom filme ou documentário, mas o pouco que vi foi suficiente para concluir que não estamos sós. A diferença, porém, é que o Eurochannel exibe também bons filmes, ao passo que nossa televisão raramente apresenta coisa que preste.
Evidentemente, algum leitor pode se zangar por conta dessas avaliações negativas sobre a TV verde-amarela. Pode argumentar, entre outras coisas, que temos a excelência da Globo. Responderia, contudo, a esse leitor, que também pensava assim antes de entrar em contato com as programações da TV a cabo. Hoje não consigo mais ver os péssimos filmes da Globo, seus noticiários pasteurizados, seus programas circenses como os do Faustão e da Xuxa, repetidos à exaustão. Quanto às novelas, só posso opinar sobre as das vinte e trinta, que costumo ver. E nesse caso, com exceção das obras-primas de Dias Gomes, o resto deixa a desejar quanto aos enredos, geralmente, festivais de maucaratismo. A que passa atualmente, intitulada ‘‘Por Amor’’, é simplesmente rançosa, um arremedo de dramalhão mexicano onde os melhores atores se transformam em personagens chatíssimos como o da mãe suburbana que vive passando sermão na filhinha, no filhão cabeludo e no marido, ou da lânguida e insuportável Eduarda e do seu não menos antipático marido Marcelo. Isso para não falar do papel enjoadíssimo em que meteram a pobre Regina Duarte, e a mediocridade geral imposta aos demais artistas.
Mas dirão os defensores de nossa TV: e o maravilhoso programa do Jô Soares? De fato, Jô Soares é ótimo, mas o excesso de repetição satura. Além do mais, vem caindo sistematicamente o nível dos entrevistados, e aquela entrada do Jô dançando é de um ridículo atroz. Observe-se ainda, que o programa não passa de uma cópia descarada de um talkshow de uma da TVs norte-americanas.
Falando em imitação, note-se como a gravidez da Xuxa em muito lembra a da pornô-cantora Madonna, que engravidou como quem faz marketing. Quer dizer, os nossos brasileiros são menos criativos que os outros.
Dirão ainda alguns que se as programações são mais pesadas à noite, que se assista televisão durante o dia. Mas não tem jeito. São vinte e quatro horas de mundo cão, violência e obscenidades. E mesmo os programas femininos que pululam nos horários da tarde, deveriam arrancar protestos das feministas, pois apenas retratam um medíocre mundo de mulheres de minúsculos cérebros, que só se interessam por comida, roupa e amenidades.
Uma vez vi um filme na TV Cultura de São Paulo, ‘‘Os Caubóis de Leningrado’’, que terminava com a seguinte frase: ‘‘Porcaria é que faz sucesso’’. Naturalmente, tal afirmação não se aplica só à TV, mas às manifestações humanas em todos os setores. De todo modo, acredito que se a poderosa televisão resolvesse apresentar coisas boas em vez de porcaria, poderia colaborar como nenhum outro controle social para a educação popular e para a elevação dos povos. Se isso acontecesse, quem sabe a humanidade seria menos ‘trash’.

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