Por uma universidade pública
Aproximam-se as eleições na Universidade Estadual de Londrina (UEL) e se intensificam as preocupações em torno dos rumos que a instituição irá tomar a partir dos episódios recentes que alteraram sua conjuntura interna e sua relação com o governo do Estado. As denúncias sobre a administração Jackson revelaram o perigo do desvirtuamento das verdadeiras funções da universidade para atender a interesses político-partidários. Por outro lado, a longa greve serviu para mostrar a fragilidade das relações da UEL com a comunidade, a desesperança generalizada de seus servidores, e a apatia da maioria de seus estudantes. O embate com a Seti trouxe-nos, ainda, um projeto de autonomia eivado de equívocos e uma solução que poderia, se negociada desde o início, ter evitado todo o desgaste sofrido. A correção dos salários defasados, único item da pauta inicial parcialmente atendido, não foi proporcional aos custos pessoais e coletivos. Além do mais, imagina-se que trará sérias consequências para a manutenção futura da universidade.
Nessa conjuntura, a escolha dos que irão dirigir a universidade, seja na Reitoria, nos Conselhos Superiores, nos Centros ou nos Departamentos, se reveste da maior responsabilidade, pois é através dessas escolhas que estaremos definindo que universidade queremos para o futuro. Que universidade será essa? Na possível similaridade de discursos dos candidatos será necessário identificar quais propostas e postulantes têm o perfil necessário para levar à consecução de um projeto de universidade verdadeiramente pública.
Já posso antever os anseios por uma universidade pública, gratuita, autônoma, democrática, transparente. Um só termo resume todos os demais. Uma universidade verdadeiramente pública deve ser gratuita, autônoma, democrática e transparente. E o que significa isso? Significa, por exemplo, que sua missão está acima dos interesses de grupos ou partidários. Significa que sua vocação é para a produção e disseminação do conhecimento. Nossa história recente já mostrou os danos que podem decorrer de uma universidade conduzida por aqueles que a vêem apenas como trampolim para sua trajetória política. Ser autônoma significa ser capaz de decidir seus rumos tendo como horizonte seu papel acadêmico.
Ser verdadeiramente pública significa também que sua gestão é feita de modo democrático, porém não paralisante, em que a representatividade de todos os segmentos a ela atrelados é garantida até o ponto em que não comprometa sua agilidade. Quer dizer, ainda, que seus objetivos e ações são definidos de modo inclusivo e abrangente e que a execução de suas metas se dá com constantes prestações públicas de contas.
Ser uma universidade pública implica em possibilitar seu acesso a todas as camadas da sociedade e, eventualmente, criar mecanismos para compensar desigualdades no processo de competição por suas vagas. Uma universidade verdadeiramente pública procura garantir a qualidade do conhecimento produzido e transmitido no seu interior e para a comunidade na qual se insere, procurando acompanhar a evolução das pesquisas no cenário nacional e internacional.
Uma universidade pública de verdade está comprometida com o pluralismo de idéias e vocações, mas sem perder o norte de sua função primeira, e por isso não pode ser transformada em palco de embates partidários que, longe de serem democráticos, alijam a possibilidade de constituição do caráter público da instituição.
Uma universidade verdadeiramente pública é, em suma, aquela que se vê construindo uma sociedade democrática. Ser pública nesse sentido não significa apenas que sua fonte de financiamento seja o Estado (e é importante que continue sendo), mas que agrega a isso a missão de formar cidadãos que, capazes de produzir conhecimento, usá-lo e disseminá-lo, o fazem com a finalidade de construir uma sociedade mais justa.
É essa esperança que deve nos mover no momento decisivo da escolha dos novos dirigentes da UEL. Será preciso um olhar sensível para optar por aqueles que realmente têm o perfil para liderar o início da trajetória rumo ao futuro, afastando nossa universidade dos nefastos exemplos de manipulação do patrimônio público. Dirigir uma universidade verdadeiramente pública neste momento requer defendê-la dos que podem se sentir tentados a transformá-la em palco de disputas político-eleitorais. Requer dirigentes que façam frente a um governo até agora insensível à sua missão primária, que é a de gerar conhecimento. Requer um compromisso coletivo com o caráter público, apartidário e acadêmico da instituição.
TELMA GIMENEZ é professora do Departamento de Letras Estrangeiras Modernas da UEL





