Por uma política de investimentos
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 30 de janeiro de 1997
José Roberto Mendonça de Barros e Lídia Goldenstein 
Após um processo, em muitos segmentos radical, de exteriorização da compra de componentes ou até mesmo de produtos finais, como forma de conseguir rapidamente aumentar a competitividade e sobreviver à redução das margens de lucros, começamos, agora, a assistir a um processo de reintegração produtiva que, se persistente e auxiliado por alguma política de investimentos, permitirá o adensamento das cadeias produtivas com a internalização da produção.
São vários os motivos que nos levam a acreditar nessa nova hipótese. Após um primeiro momento, no qual o caminho mais fácil e rápido era importar tudo o que barateasse a produção, a opção pela produção local, em larga escala e com alta produtividade, passa a se impor. Os custos de depender totalmente do fornecimento externo, a distância do Brasil e, principalmente, o tamanho do nosso mercado justificam os investimentos em certos elos das cadeias produtivas que haviam sido amplamente externalizados ou que nunca tinham sido produzidos aqui em escala suficiente.
A produção em grande escala, segundo as modernas sistemáticas de produção enxuta e on line, implica e em alguns casos torna obrigatória a existência de um fornecedor local. Fatores como distância e elevadas taxas de juros inviabilizam a manutenção de grandes estoques, reforçando a opção pela internalização da produção.
Em algumas cadeias produtivas, como na automobilística, as escalas de produção que passamos a alcançar, após o Plano Real, e os atuais processos produtivos, ao contrário do que tem sido dito, levam à internalização de importantes segmentos da cadeia. O moderno processo produtivo baseado no just in time torna necessária a presença dos fornecedores em locais próximos às montadoras, o que as tem levado a fomentar a vinda de seus parceiros internacionais - produtores de autopeças - para o Brasil. Ou seja, aos poucos estamos internalizando novamente setores que haviam passado por um processo de importações de grandes volumes. O resultado, do ponto de vista macroeconômico, é o adensamento da cadeia produtiva, embora, não se pode negar, com profunda transformação das características dos produtores no nível micro. O setor de autopeças é um dos que têm passado pelas maiores transformações, com fusões, encerramento de atividades e desnacionalização.
Portanto, apesar de não duvidarmos que está em curso um processo de ajuste ao movimento inicial de externalização da produção, que permitirá um processo de reintegração produtiva com adensamento das cadeias produtivas, concordamos não só que o ritmo do processo deve ser maior, como também que importantes segmentos da cadeia produtiva, especialmente aqueles altamente intensivos em tecnologia, não passarão necessariamente por esse processo. É por isso que acreditamos que, mais do que nunca, precisamos de uma política de investimentos e competitividade para diminuir as dores desse processo e consolidá-lo de forma a garantir a reestruturação dos setores mais tradicionais, com maior dificuldade de se adaptar aos novos condicionantes da economia: o adensamento do valor adicionado das várias cadeias produtivas, investimentos em tradables e em setores que exigem maior capacidade tecnológica.
Não é mais
possível criar
competitividade
à custa do Tesouro
Uma política de investimento e competitividade não deve ser confundida com a velha política industrial do passado que, em nome da proteção a determinados setores, comprometia a produtividade de toda a economia. Não se pode repetir o erro de dar incentivos para alguns setores à custa da perda de competitividade internacional e da obsolescência tecnológica. Também não é mais possível criar competitividade à custa do Tesouro, nem reproduzir o velho jogo de escolha de ganhadores.
Entre a tentativa de controle absoluto da matriz industrial e o laissez-faire, precisamos, porém, encontrar um novo perfil de política industrial, uma atuação governamental que contribua para adensar as cadeias produtivas, incentivando, viabilizando investimentos em certos elos que padecem de estrangulamento. Não é, necessariamente, uma política generalizada para toda as cadeias produtivas, também não é para todos os elos da cadeia. Ao contrário da nossa prática passada, os segmentos que receberem algum tipo de incentivo só irão fazê-lo com a contrapartida de se manterem competitivos internacionalmente.
Com essa análise em mente, acreditamos que os objetivos a serem alcançados por uma política de investimento e competitividade podem ser assim sintetizados: reestruturação dos setores mais afetados, adensamento das cadeias produtivas e modernização tecnológica das exportações. Os caminhos iniciais de atuação (muitos já em processo de estabelecimento) para tornar esses objetivos viáveis podem ser assim resumidos:
- Redução do custo de produção, para elevar a competitividade tanto das exportações como da produção interna, vis-à-vis as importações: logística, impostos, desregulamentação, desburocratização, redução das taxas de juros.
- Criação de linhas e instituições de crédito para suportar a reorganização setorial e estimular o adensamento das cadeias produtivas.
- Criação e desenvolvimento de parcerias no risco dos projetos: fundos de empresas emergentes e project finance.
- Políticas horizontais gerais, dado que, cada vez mais, as vantagens comparativas são criadas por investimentos maciços em treinamento, educação, tecnologia e informação. No caso particular da educação, a revolução é a inversão de prioridades na direção do ensino fundamental e técnico. No caso do investimento em tecnologia, o desafio é o estabelecimento de políticas de atração de investimentos e upgrade tecnológico.
- Políticas de suporte das exportações: desoneração fiscal, seguro de crédito, linhas especiais de crédito e promoção comercial.
- Políticas específicas para pequenas e médias empresas.
- Políticas de defesa da concorrência no mercado interno.


