Por uma pedagogia da tolerância
''Caminante no hay camino, el camino se hace al andar'' (Machado). Realizou-se, em Montevidéu, de 15 a 17 de outubro, o 10º Encontro Internacional de Educação do Mercosul, com a participação de educadores da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, para refletir sobre o tema ''A Era do Conhecimento e o desenvolvimento humano: uma Cultura de Paz''. O objetivo principal foi entender as mudanças de paradigmas que permeiam a chamada ''Era do Conhecimento'', buscando as competênciais sociais necessárias para o desenvolvimento humano e o perfil do educador diante das exigênciais de uma nova realidade social e cultural.
O clima de perplexidade e os questionamentos que decorrem dos últimos acontecimentos mundiais, justificando os apelos a uma cruzada mundial capaz de cindir, mais uma vez na história, o mundo entre os seguidores do Bem e os praticantes do Mal, fez surgir, inevitavelmente, o tema de uma educação capaz de produzir uma autêntica ''cultura de paz''.
O passo inicial para o estabelecimento de uma cultura da paz é a renúncia às éticas totalizantes, fundamentadas em absolutos a priori, raiz primeira dos fundamentalismos e fanatismos. Em nome da verdade já se praticaram demasiados crimes. Isto não quer dizer, no entanto, a adoção de um ecletismo ético baseado num pragmatismo ''mercadológico'', mas se trata de estabelecer um modelo ético fundado numa compreensão do ser humano enquanto não apenas busca seu interesse próprio, mas permanece aberto aos reclamos de solidariedade na construção coletiva da humanidade.
Enquanto educadores/as, temos a responsabilidade de repassar aos nossos alunos e alunas esse sentido de solidariedade humana que os torne pessoas abertas, transparentes e, acima de tudo, tolerantes com a diversidade humana. Educá-los no sentido do ''cuidado'', entendido como uma relação amorosa que descobre o mundo como valor, que expressa a importância da razão cordial (do ''coração'').
Cabe-nos basear tanto as instituições educativas quanto suas atividades numa autêntica ''pedagogia da compreensão'', que assuma que a inteligência, antes de ser um instrumento para o sucesso e a competição, é a capacidade para ''ler o interior'' ou ''a partir do interior'' das pessoas e das coisas (intus + legere). Somente assim o conhecimento possibilitará as condições para um verdadeiro ''re-nascer'' de cada criança ou jovem aos nossos cuidados, permitindo que aprendam a viver juntos, a construir a solidariedade, a tornarem-se ''fazedores de pontes'' - pontífices - para a paz.
O umbral que permite a travessia em direção à paz dinâmica e construtiva é a tolerância. Não tolerância como ''fardo'' ou ''necessidade'' de um mínimo de convívio social. Mas tolerância como expressão de um ''jeito humano de criar mundos''. Aceitar o outro, reconhecer o diferente como ''igual'', construir um horizonte de compreensão em torno a uma linguagem e esperança comuns.
É esta capacidade de tolerância que possibilitará a realização de cada um como pessoa humana dotada de dignidade plena. E isto somente será construído se cada educador/a assumir, como divisa pessoal inabalável, a afirmação de Elie Wiesel, o Prêmio Nobel da Paz de 86, que sobreviveu aos horrores de Auschwtiz: ''Temos que crer no homem, apesar do homem''.
A tarefa do educador/a, hoje, não pode ser senão uma permanente afirmação de otimismo, apesar de tudo. Apesar do escândalo de um mundo que dispende US$ 8 bilhões em cosméticos, US$ 12 bilhões em perfumes, US$ 117 bilhões em alimentos para bichinhos de estimação e US$ 780 bilhões em gastos militares, contra apenas US$ 6 bilhões em ensino básico (dados do PNUD/Unesco 1998), é preciso cultivar a esperança e educar para a paz, através da tolerância.
E para isso não existem receitas prontas nem caminhos abertos: eles serão feitos por nós, mas somente se formos educadores/as capazes de sonhar a utopia possível, já que, parodiando o poeta, podemos dizer que ''el camino se hace al sueñar''.
- TEOFILO BACHA FILHO é membro do Conselho Estadual de Educação e participou do 10º Encontro do Mercosul
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