Por uma frente de cooperação - Walmor Maccarini
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 07 de outubro de 1998
Walmor Maccarini 
Mal definiu-se a reeleição de FHC, e os dois principais candidatos não eleitos já pensam em formar uma frente de oposição ao governo. Por que, ao invés disto - se é que eram tão patriotas como se acreditava que fossem - eles não começam a pensar numa frente de cooperação? Opositores, já bastam os problemas! Não é de oposição que o governo precisa agora, mas de muita ajuda. Os dois candidatos - que receberam expressiva votação - devem saber que seus eleitores não lhes outorgaram o voto para que fossem oposição e sim para que fossem governo. Então, que eles sejam governo, na proporção dos votos que receberam. Já basta o tempo perdido nestes últimos quatro anos, quando nenhuma grande reforma passou pelo Parlamento, pela reação das oposições e dos blocos não atendidos em seus interesses.
Não é com oposição que iremos resolver os problemas que nos desafiam, mas com cooperação e patriotismo. Que agora são exigidos de eleitos ou não, e da sociedade por inteiro. Ao invés de oposição, o momento exige a presença ativa e vigilante de todos, porque somos passageiros do mesmo barco. O Brasil não é um feudo que pertença aos governos, como se fossem apenas eles os responsáveis pela guarda da Pátria. A pátria somos nós, e todos já somos bem crescidos para saber da parte que nos toca. Não podemos ficar em atitude contemplativa à espera do milagre. E pior que se postar nessa ridícula expectativa é fazer oposição cega e inconsequente.
Cansa essa lenga-lenga pessimista, raivosa e inconsistente. Embora encontre adeptos - e isto foi manifestado nas urnas, porque os candidatos são egressos do meio - o discurso oposicionista, sem grandes propostas, ou de propostas vesgas como esse acerbado ideal nacionalistóide e estatizante, está totalmente fora da realidade global.
Se queremos de fato fazer crescer este país, temos que nos unir numa grande corrente de cooperação. Que os discursos de oposição se transformem agora em discursos de idéias. Concordar é uma atitude que as oposições podem também assumir, por que não? Se as oposições amam tanto esta pátria, como proclamam em seus discursos, esta é uma boa hora para demonstrá-lo. Boas e bem fundamentadas idéias, com toda certeza encontrarão acolhida por parte dos governantes, mesmo que partidas das oposições, mas é preciso a coragem patriótica de formulá-las. A repetição do protesto discursivo nada resolve, mas pode ser que seja exatamente isto que as oposições queiram: que nada se resolva e assim o discurso possa continuar. As oposições fanatizadas temem a possibilidade de que as soluções aconteçam, porque isto seria desesperante para elas.
Para ajudar este país não é preciso ser governo. Porque o Brasil será edificado não por governos mas pelos brasileiros. Porém, se é certo que o governo é um importante canal nessa empreitada, os políticos, as lideranças não-políticas, as oposições, os cidadãos, que marquem presença com sua contribuição neste momento, quando se espera grandes definições, porque em início de novos mandatos governamentais e por coincidência numa hora grave da situação econômica internacional, que envolve a todos nesta aldeia global.
Cada candidato não guindado ao poder mas que tenha obtido expressiva votação tem uma parcela de eleito, na correspondente quantidade dos votos que recebeu. Quando o cidadão vota num candidato, ele o está elegendo, e não se pode desprezar a decisão de 70% de brasileiros aptos que não votaram no presidente reeleito (assim como 70% de paranaenses aptos que não votaram no governador também reeleito).
Mas se foi Fernando Henrique Cardoso o alçado ao poder pelo instituto consagrado da maioria, então agora FHC é o presidente da República e a ele devemos respeito e reverência (idem, idem com relação aos demais eleitos). Por dever de ofício, o mandatário supremo tratará seu povo com idêntico respeito, mas todos nós temos obrigação cívica de apoiá-lo nas grandes causas, e esta é também responsabilidade dos parlamentares que acabamos de eleger. Os governantes não têm respeitado o povo e o povo não tem respeitado os governantes, e isto tem que acabar.
Nesta hora não faz sentido o discurso de oposição, e nem o povo aguenta mais isto. O discurso agora há de ser de cooperação. E cooperar não pressupõe concordar com tudo. Mas que não haja ira nem sabotagem. Porque pode haver ordem, progresso e harmonia entre discordantes. A harmonia dos discordantes estabelece o equilíbrio.
No Brasil, por tradição, os políticos ou são cegamente a favor do governo ao qual estão vinculados, ou são contra. Exercem uma política de relação com as próprias fileiras, e não com o povo. Votam com ou contra os pares, não com a Nação. Perdem a memória da representatividade popular. Até que chegue a próxima campanha...
Não vamos falar em crise, mas criar uma frente de otimismo e cooperação, e para isto basta que cada um de nós faça bem feita a sua parte. Que cada ato, em cada momento, seja um ato de cooperação e de solidariedade.
Vamos conspirar contra nossas imperfeições, e se nos acostumarmos a isso acabaremos descobrindo que os governos nem são tão necessários...
- WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina


