Por uma decisão política de qualidade - Farage Kouri
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 28 de novembro de 1997
Farage Kouri 
Os capitais especulativos, que não têm pátria e nem respeitam fronteira, são neste momento o epicentro do terremoto que desestabiliza as economias mundiais emergentes inseridas no processo de globalização, causando terror pela agilidade que agem, sendo capazes de mudar o dia para a noite o perfil do desenvolvimento econômico e social. O terror é ainda maior quando se imagina que o fenômeno não tem um explicação plausível, que permitisse uma readequação e a recomposição das economias atingidas.
Desde os chamados tigres asiáticos até os países da América Latina, como o Brasil, essa varredura especulativa vem produzindo o caos, que se acentua quando as políticas econômicas desses países ainda carecem de uma definição política competente, para viabilizar as reformas estruturais absolutamente necessárias ao equilíbrio entre despesa e receita das administrações públicas. No Brasil, o descompasso político-institucional acaba por produzir um desfalque de grandes proporções nas reservas do País, porque o Banco Central passa a atuar diretamente no mercado monetário investindo grandes somas para evitar a desvalorização da moeda nacional em relação ao dólar. Nas últimas semanas, de acordo com a imprensa especializada, o desfalque começou cerca de 8 bilhões de dólares, um montante fatal para os interesses do desenvolvimento brasileiro e regional.
Para acalmar os ânimos do dinheiro volátil e especulador, o Banco Central também atua tempestuosamente elevando a patamares insuportávels as taxas de juros, que no período de normalidade já eram altas para uma economia que se imaginava estável. A medida que inviabiliza qualquer ação empresarial, desde os grandes empreendimentos que necessitam de investimentos permanentes, até os pequenos e médio negócio, que somam a maioria no contexto da economia.
A expectativa até então otimista de um período de boas vendas em função das festas natalinas e de fim de ano, caiu por terra. A área econômica da indústria e do comércio, também de serviços, especialmente de micros, pequenos e médios empreendedores, terão de se preparar para mais um tempo de vacas magras. Este momento que poderia ser a redenção de muitos negócios, acabará sendo a referência de uma cruel recessão, que não ficará por conta do período natalino e de fim de ano, porque nos meses seguintes, até quase a metade do próximo ano, a movimentação da indústria, comércio e serviços normalmente tende a cair.
Com esta nova situação, a expectativa é altamente pessimista.
Antes de tudo, é necessário que a sociedade organizada pare para pensar e faça uma boa reflexão sobre este momento histórico que vive o País, quando se acena com as maravilhas da era da modernidade, embora da teoria à prática seja sempre um longo e árduo caminho.
Desde que se implantou o plano da economia, sabia-se que sem as reformas estruturais necessárias ao equilíbrio das contas públicas, adequação administrativa, fiscal, tributária e previdenciária, não seria possível sustentar por longo tempo uma expectativa otimista em relação a este processo inovador e promotor do moderno desenvolvimento. A decisão política em relação às reformas ultrapassa o tempo limite do plano de estabilização, porque o pensamento político não acompanha a diretriz técnica (o plano é essencialmente técnico). Enquanto demora, o governo busca o equilíbrio de contas públicas em medidas aleatórias e inconsistentes, como o Fundo de Estabilização Fiscal, que remaneja recursos das políticas sociais para coibir o ralo da despesa pública, acrescidas de outras como a CPMF, ou imposto do cheque, que já demonstra o contrasenso em relação às diretrizes do plano, porque eleva ainda mais a já insustentável carga tributária.
A reflexão sugere que a sociedade deverá demandar por uma decisão política competente, de qualidade, no âmbito do Congresso Nacional, que corresponda sem intercessões ao interesse coletivo. Em função do descompasso político, o País vem testando há mais de uma década implementar o plano de estabilização desde o cruzado até o real, mas sempre esbarra na visão fisiologista do Parlamento. Somente a evolução da cultura política será capaz de promover o desenvolvimento e tirar o País da aleatoriedade e da vulnerabilidade diante do inusitado e da ganância do capitalismo especulativo.


