Por um só Brasil
A marca mais perversa da sociedade brasileira continua ligada ao apartheid social e racial que divide o país desde a sua origem e que se manifesta em ódios cada vez mais violentos. Nenhum país do mundo é mais injusto do que o Brasil quando se fala em distribuição de renda, haja vista que 1% da população concentra 28% de toda a riqueza coletivamente produzida. A classe baixa brasileira soma cerca de 35% do total da população, ou seja 70 milhões de pessoas. Chama a atenção que estamos falando de um dos países mais ricos em recursos naturais e a oitava economia do mundo.
Aprofundando a análise, percebe-se que a pobreza no Brasil tem cor, pois a grande maioria dos que se encontram em condições socioeconômicas mais desfavoráveis, são afrodescendentes, fato que esclarece muita coisa. Embora negros e pardos sejam mais de 50% da população brasileira, o desemprego entre estes é o dobro da média nacional, e a renda é quase a metade da população branca. A expectativa de vida da população negra é de 66 anos, enquanto que a média brasileira é de 75 anos. A taxa de analfabetismo entre os afrodescendentes é duas vezes superior ao restante da população, são a maioria dos moradores de favelas (cerca de 70%) e também os que mais sofrem assassinatos (aproximadamente 70% do total). Têm baixíssima representatividade política, haja vista que o Congresso Nacional conta com apenas 8,5% de negros em sua composição. A discriminação é visível também nas empresas, pois das 500 maiores corporações em atuação no país, apenas 5,3% contam com negros em sua diretoria.
O sociólogo Jessé Souza vem se notabilizando pela análise peculiar da compreensão da realidade nacional. Para o autor, nada foi mais marcante para definir a identidade brasileira do que a escravidão, considerando que fomos o país que mais teve escravos e, o que mais tempo demorou para libertá-los. O tempo passou, mas fomos incapazes de superar essa terrível marca, tornando-se essa a principal herança nacional.
A classe média brasileira sempre teve como traço a busca por se distinguir da classe de baixo, "a ralé", por um lado como forma de manifestar superioridade, por outro para poder usá-la como fonte de exploração e perpetuação de privilégios. O desprezo ao pobre, marca da nossa realidade social, é a continuidade do ódio devotado ao escravo, e como a tragédia é diária acaba por ser naturalizada, e pior, o próprio pobre acredita na sua maldição, culpando-se pelo infortúnio.
Boa parte das tentativas de superar essa condição foram desmontadas, parece ser inadmissível ver esse grupo ascender socialmente e se misturar aos demais, é como se as impurezas estivessem no andar de baixo e lá devam permanecer. É sintomática a resistência a programas de transferência de renda como o Bolsa Família, cotas sociais e raciais nas universidades ou em cargos públicos, tributação progressiva, movimentos por reforma agrária, ou moradia para os sem teto. Prefere-se erguer muros de medo, do que construir pontes que assegurem igualdade de oportunidades capazes de unificar o país.
Como ninguém escolhe o berço onde nasce, é a sociedade que deve se responsabilizar pelos grupos mais injustiçados. Foi isso que fizeram as nações socialmente mais desenvolvidas que tanto despertam admiração por aqui. Expandiram os direitos das classes populares, implantaram ações afirmativas para impulsionar os grupos mais vulneráveis, instituíram uma política fiscal progressiva e centraram esforços numa educação pública de qualidade e para todos. Por aqui, prefere-se estigmatizar os mais fragilizados como 'não-gente', como um grupo invisível, inferior, apartado dos demais e que deve aceitar a situação de forma passiva e submissa. Um misto de sadismo e indiferença que coloca em xeque a crença no desenvolvimento humano.
LUÍS MIGUEL LUZIO DOS SANTOS (professor de Socioeconomia UEL) - Londrina
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