ESPAÇO ABERTO -

Por reformas mais republicanas


Não é difícil entender como a direita brasileira logrou monopolizar a crítica ao status quo. Um Estado que define carreiras com salário inicial de 24 mil reais para um detentor de diploma de graduação e abriga dos mais escandalosos coeficientes de concentração de renda entre seus servidores não tem por onde fugir à crítica. A esquerda, entretanto, atordoou-se e anda perdendo o bonde.  


O que esfumaça essa realidade e a necessidade da sua crítica para muitos é que o Estado também carrega consigo, nas máximas de seus agentes e nos valores institucionalizados de suas repartições, os ideais mais progressistas e os princípios mais caros à modernidade ocidental. Criticar o Estado parece, para muitos, típico e exclusivo de um pensamento reacionário.  




Entretanto, certa tradição do pensamento social brasileiro nos auxilia muito a compreensão dessa aparente contradição. A articulação de elementos modernos e arcaicos no processo de desenvolvimento nacional foi um tema recorrente entre inúmeros desses pensadores. Com eles, se compreende que essa modernização conservadora resultou, entre outras coisas, em princípios e ideais da modernidade sendo mobilizados como signo de status, como adornos distintivos e ostentatórios de certos estratos da população.


A história é prenhe em exemplos: brados liberais em meio à escravidão; um laboratório médico erguido como castelo mourisco; auxílio-moradia para combater a corrupção enquanto 100 milhões de concidadãos permanecem sem acesso a tratamento de esgoto. 


O processo é de distinção social. Daí a contradição entre ideais progressistas e práticas arcaicas, avessas à sua própria racionalização. Cria-se uma cisão, um descolamento, que se sustenta no e pelo Estado. Nele, os grupos se blindam do insensível pagamento à vista, preservando suas relações idílicas.  


Do outro lado, os agentes do mundo econômico mobilizam a racionalidade instrumental como a insígnia de seu próprio status. Logo, e muito coerentemente, princípios de justiça, ideais democráticos, ciência e tecnologia são perfumaria, gasto inútil e prescindível. Vivemos, no Brasil, essa rotura. Nenhuma das partes reconhece as atividades da outra como um componente que constitui e alimenta, em última instância e através de uma complexa cadeia de operações, a sua própria. Cada qual, segundo sua própria lógica, remete-se diretamente ao Estado para garantir espaço e recursos.


Em tempos de crise, a disputa torna-se encarniçada, pois os recursos minguam e as acomodações nunca se sustentaram por acordos publicamente racionais. É cada um por si e o Estado por alguns. Atualmente, com o país em crise, estamos em meio a disputas como essa e a lógica do mundo econômico tem prevalecido. Também, pudera! Que credibilidade tem um funcionalismo que considera aposentar-se aos 65 anos trabalhar até morrer? Uma justiça que associa combate à corrupção a auxílio-moradia? Serviços públicos essenciais que dependam de licença-prêmio? Universidades que associam autonomia a recursos infinitos?  


Enquanto isso, para a população habeas corpus é qualquer coisa de fantasmagórico, mandado judicial é um fuzil apontado na testa e educação pública, gratuita e de qualidade um slogan vazio enquanto se faz um curso EAD ministrado por tutores mal pagos. Mantendo-nos nessa toada, somos só resquício atávico de um passado nada glorioso. Se preocupados com o país, não me parece que o papel da esquerda fosse simplesmente o de negarmos as reformas. Podemos pautar um debate mais republicano, em que a importância dos serviços públicos não sirva de justificativa para benefícios que beiram ao acinte à nossa população. Sem messianismos civilizatórios, será uma grande conquista conseguirmos nos ver e reconhecer, a todos, como iguais. 


DANIEL GUERRINI (professor do Departamento de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Tecnológica Federal do Paraná – Câmpus Londrina) 

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