Por que temos que marchar? - Walmor Maccarini
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 09 de setembro de 1998
Walmor Maccarini 
Se, normalmente, não caminhamos marchando, por que nos desfiles do Dia da Pátria temos que marchar? Por que não desfilamos movendo o corpo descontraidamente, do jeito que somos? Será porque desfile tem que ser disciplinado? Mas a disciplina estaria nos pés ou na mente?
Marcha lembra soldados em formação, e soldados lembram guerra. E por que, nos desfiles de 7 de Setembro, tem que haver soldados de fuzil no ombro, baionetas caladas, jipes de combate, tanques, sobrevôos de jatos de caça? Por que as solenidades em homenagem à Pátria têm que trazer lembranças de guerras? Então, Dia da Pátria é dia da pátria guerreira...
E nós pensando que pátria era outra coisa...
E os brasileiros? Os brasileiros deste século nem sabem o que é uma guerra. Brasileiro, se for chamado para uma, já declara de pronto: ou mato ou morro. Ou corre para o mato ou para o morro...
Guerra, por exemplo uma paixão americana e de alguns outros povos, para o brasileiro não faz sentido. Brasileiro - em verdade não muito patriota, a não ser em tempo de Copa - não alimenta ideais de guerra. Gosta de gente e de paz. Com muita cerveja antes, muita durante e muita depois, e boa conversa nos intervalos. Uma pitada de irresponsabilidade - algo hereditário, de origem consanguínea - e amor demais...
Esses desfiles ricos em garbo militar deixam os jovens e adolescentes em intrigante indagação, porque eles não encontram significado para tanto instrumental de morte e tanta exaltação a símbolos de guerra.
Se somos o país do futebol e do Carnaval - não é assim que nos classificamos? - os festejos da Pátria deveriam acontecer em fevereiro, um deles; o outro, de quatro em quatro anos. Ao menos deste último a Nação inteira participa, sem ser obrigada nem por escolas e nem por instituições. É espontâneo.
Por que o Dia da Pátria tem que lembrar feitos militares, lutas sangrentas, desembainhar de espadas? As glórias de uma nação só se manifestam quando vencemos alguém pelo poder das armas? São só essas as vitórias humanas? Será que o brasileiro, de 1822 para cá, não fez mais nada de grandioso que mereça ser comemorado? O nosso mais glorioso dia foi quando nos tornamos independentes de Portugal?
A propósito, o que é ser independente? Nos últimos 150 anos ficamos livres dos portugueses mas temos estado dependentes de outros povos europeus, dos norte-americanos (e por conta disto até nos enfiaram numa guerra, obrigando brasileiros-italianos a lutarem contra seus consanguíneos peninsulares, por implícita extensão japoneses-brasileiros contra seus irmãos do Japão, alemães patrícios contra seus iguais alemães), no ano passado ficamos dependentes das estrepolias das Bolsas asiáticas, e agora estamos dependentes da Rússia.
Ah, essa Rússia! Por causa de seus ideais exportados, em tempos recentes amargamos 20 anos de atraso, no Brasil. Quando ela era socialista fizeram-nos crer que o socialismo era algo diabólico, agora é o capitalismo russo que nos assusta.
Que bom se hoje pudéssemos voltar a ser dependentes de Portugal! Só de Portugal. Ficaríamos apenas na obrigatoriedade de exportar para lá uma quantidade de mulatas, porque os portugueses as apreciam muito. Mas não seriam todas. Nossas reservas estariam sempre garantidas por um considerável superávit. Teríamos que cantar suas cantigas, namorar suas raparigas, aprender o fado, cultuar Amália, nos afundar em Camões e em Fernando Pessoa, já não mais beber os vinhos do Rio Grande mas os vinhos verdes das barrancas do Tejo (adorável sacrifício!), no lugar do cafezinho o vinho do Porto, viajar pela TAP, estudar em Coimbra (...fonte dos amores ...uma lição, de sonho e tradição) e, obviamente, falar um bom português. Esta já seria a parte problemática, porque brasileiro, nisto, não é bom.
Ficamos imaginando porque as escolas ensinam tanto o culto a homens que empunharam espadas, a vitoriosos de guerras, e porque a história que está nos livros didáticos é sempre contada a partir de um ponto de vista oficial. Nunca se conta o que o povo estava pensando ou fazendo enquanto os heróis da pátria guerreavam. Então a história de um povo é a história de suas guerras?! Se os professores ensinam, se os pais cultuam, se a imprensa dá grande destaque, se as igrejas não são contra, então deve ser isto mesmo...
Mas essas pessoas e instituições não são necessariamente o povo. E o que pensa o povo?
Os historiadores nunca ouvem as pessoas do povo.
- WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina


