As eleições deste ano colocaram o PT no centro do cenário político nacional. Nada mais natural, uma vez que o PT está presente em grande parte dos municípios nos quais se realizará votação no dia de hoje. Esta guinada eleitoral à esquerda foi recebida com surpresa pelas forças políticas dominantes. Os mais conservadores chegaram mesmo a esboçar reações iradas, numa resposta autoritária às mudanças que começam a se projetar para o futuro. De sua parte, os candidatos adversários viram nessas reações um valioso lastro social para disseminar pelo País uma campanha de terrorismo ideológico, buscando associar o PT aos estereótipos presentes no imaginário do eleitorado.
A princípio, todo cidadão com espírito democrático, que vê na ação política não apenas um método de realização dos interesses de grupos sociais, mas uma oportunidade de construção da ‘‘justa medida’’ e do ‘‘bem comum’’, pode pensar que as críticas ao PT, por se constituírem numa eterna repetição de imagens e conceitos reacionários, sequer merecem resposta. Mas a rápida disseminação de uma única estratégia de ataque ao PT em todo o Brasil, utilizando slogans e bordões comuns, sugere-nos que ainda existe no País uma direita anti-democrática, que luta com suas últimas forças para preservar suas expectativas de poder.
De fato, o exemplo mais concreto dessa tese é a sobrevida do malufismo em São Paulo. Originário dos quadros da ditadura militar, Paulo Maluf é a expressão máxima de uma corrente política em decadência, que experimentou o poder pela via autoritária e hoje se dedica a cativar os mais pobres e desinformados com discursos autoritários e dirigidos diretamente às massas. Em tempo: Maluf é um símbolo, mas não um caso isolado. Se olharmos com atenção vamos deparar ora com seus antigos companheiros de partido – alguns ainda disputando eleições – ora com jovens populistas, que insistem em desprezar toda forma legítima de organização da sociedade, para propor uma ação política fundamentada num único indivíduo, salvador da pátria e herói dos descamisados.
Para o PT, o novo mapa político do País possui um significado histórico muito preciso. Tendo surgido da organização dos trabalhadores no período da abertura política, o PT se manteve fiel à sua origem democrática, tornando-se um partido no qual todos podem discutir sem amarras os problemas sociais de sua cidade, de seu Estado e do País. Este compromisso com a ação política democrática é que permite ao PT abrigar em seu interior pensamentos diversos, representados pelas correntes políticas que nele se organizam. Ao expressar essas diferenças para fora de seus muros, o PT propõe à sociedade brasileira uma forma mais madura de fazer política, que supõe tolerância com as divergências e espírito crítico nas decisões estratégicas. Contra a maneira tradicional de fazer política adotada pela direita – baseada na disseminação de um pensamento único e no estabelecimento de uma hegemonia unilateral e tutelante – o PT propõe a participação popular e o reconhecimento dos direitos da população na política institucional do Brasil.
A atuação dos parlamentares do PT é uma demonstração de como estes princípios são praticados no cotidiano da ação política. Partindo do princípio de que as leis devem expressar o mais fielmente possível a vontade da população e de que devem servir para assinalar as grandes diretrizes do desenvolvimento econômico e social do País, os senadores, deputados e vereadores do PT têm uma preocupação especial com a ampla divulgação dos trabalhos do Parlamento. Por isso também, dedicam grande parte de seus mandatos a um intenso trabalho político de organização popular, buscando legitimar todas as esferas organizadas da sociedade civil como interlocutoras do Poder Legislativo.
Do mesmo modo que os parlamentares, os prefeitos e governadores do PT se sentem imbuídos da tarefa de realizar governos nos quais os valores democráticos sejam preservados e todo cidadão tenha seu direito reconhecido pelo poder público. Por isso, as administrações do PT trazem sempre uma forte marca de prioridade para as questões sociais. Modificando prioridades na administração pública e zelando pelo uso eficaz dos recursos orçamentários, os governos petistas têm mudado o perfil de intervenção do Estado brasileiro no campo das políticas sociais, realizando programas inovadores como a bolsa-escola, os programas de renda mínima, o médico de família, e tantos outros que produzem melhorias concretas na qualidade de vida da população. Todas essas iniciativas possuem como fundamento discussão franca e aberta das prioridades da população, realizada pela prática do orçamento participativo.
Estas são razões concretas que nos ajudam a compreender o favoritismo dos candidatos do PT na maioria dos municípios no segundo turno. Muito mais que um episódio eleitoral, a vitória de petistas significa a opção da população brasileira pelos valores democráticos na política.
- RODNE DE OLIVEIRA LIMA é sociólogo, professor universitário em Londrina e filiado ao Partido dos Trabalhadores