Muitas pessoas se perguntam porque o Governo brasileiro quer privatizar a Cia. Vale do Rio Doce. Afinal, ela é uma empresa rentável, tem sido bem administrada e as suas reservas de ferro encontram-se entre as maiores do mundo. Por que então passá-la para as mãos da iniciativa privada?
O problema, porém, não se limita ao debate sobre o valor atual da Vale nem à reconhecida importância do seu desempenho passado. A questão mais séria diz respeito ao seu futuro. A União praticamente não investe na empresa há cerca de vinte anos - o seu aporte de capital líquido, nas duas últimas décadas, foi de apenas US$ 863,877 milhões. Os recursos federais escassearam desde a década de setenta e foram ainda mais reduzidos pela Carta de 88 - que optou, acertadamente, por transferir grande parte da arrecadação federal para os estados e municípios. Por isso, é bem provável que a União continuará sem meios para investir na empresa por mais vinte anos.
Os riscos dessa falta de investimentos podem ser imprevisíveis para o futuro da Vale. Até agora, ela financiou-se com a reaplicação dos seus lucros através de empréstimos levantados no mercado de capitais. Para isso, teve que endividar-se e pagar as costumeiras altas taxas de juros que o mercado financeiro costuma cobrar. O pior de tudo, no entanto, é que a falta de recursos tende a atingir os investimentos necessários na área de pesquisa. A empresa necessitaria, nos últimos vinte anos, ter aplicado em pesquisa bem mais do que efetivamente aplicou. Face aos recursos escassos, as recentes descobertas que a Vale realizou devem-se em grande parte ao esforço e heroísmo dos seus funcionários, em especial à sua equipe de geólogos.
O pouco afluxo de recursos se reflete também no campo tecnológico. A Vale necessita, com urgência, do aporte de novas tecnologias que lhe permitam não só manter a competitividade no mercado mundial mas principalmente elevar a sua capacidade na exploração das suas jazidas. Sem os investimentos devidos, a tendência de empresa seria operar num ritmo mais lento do que o recomendável. Na velocidade atual, talvez as reservas de Carajás durem por séculos. À primeira vista esse parece uma boa perspectiva. O futuro desenvolvimento econômico mundial, porém, levanta o risco da depreciação tanto dos materiais ferrosos como dos não-ferrosos. A desvalorização das matérias primas básicas é uma tendência que se observa, há muito tempo, em vários ramos industriais. Na virada do milênio, com a nova fase da revolução industrial em marcha, o mercado tende cada vez mais a buscar materiais alternativos que substituam os materiais tradicionais. O caso clássico é o de indústria têxtil, com a troca das fibras naturais por sintéticas. O mesmo processo, porém, já pode ser observado também na indústria automobilística com a substituição do aço pelo alumínio e o plástico; na indústria de comunicações com as fibras óticas em lugar do cobre e na indústria de embalagem com o plástico em lugar da lata e do estanho.
Este cenário de constante mudança levanta uma pergunta de caráter estratégico. Por quanto tempo as reservas da Vale do Rio Doce manterão o seu valor de mercado? Até quando a demanda de ferrosos e não-ferrosos se manterá no ritmo atual? No momento, os países industrializados já vêm registrando taxas descendentes no consumo de aço. Apenas os países em vias de industrialização ainda registram índices crescentes de consumo - mas também entre eles, a demanda tenderia a declinar, após a implantação de sua infra-estrutura básica. O que já vem ocorrendo com outros minérios nos alerta para os riscos potenciais que temos pela frente. No caso do estanho, por exemplo, a tendência declinante no seu consumo, aliado à super oferta, tem provocado a queda constante nos seus preços - o que levou alguns países líderes na sua produção, como a Bolívia, a enfrentarem dificuldades econômicas depois que suas receitas caíram abruptamente. Um problema que ainda mais se agravou em face das técnicas rudimentares de extração do produto, cuja tecnologia deixou de receber os investimentos necessários.
Num contexto dessa ordem com o mundo em rápida mudança o Governo brasileiro tem que tomar uma decisão estratégica. Diante das perspectivas dos riscos do cenário econômico que temos pela frente, percebeu-se que a pior das soluções seria manter-se numa posição defensiva ou imobilista. A complexidade do momento atual não permite decisões ambíguas ou protelatórias. É preciso ter coragem política de optar por medidas que permitam ao país sair, o mais rápido possível, da estagnação econômica e social em que foi lançado nos anos oitenta, a chamada década perdida. Para isso, faz-se necessário dar início a um novo ciclo de desenvolvimento econômico, que permita ao Brasil tomar parte na nova fase da revolução industrial que o planeta atravessa - e principalmente evitar de ficar à sua margem, o que seria o pior que nos poderia ocorrer.

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