Adriana Pasello

Você já teve vontade de conhecer as grandes cidades turísticas do Golfo Pérsico? Eu tenho sonhado com Dubai, Abu Dhabi e Doha, mas confesso que meu desejo de visitar esses destinos de arquitetura única diminuiu drasticamente nos últimos dias.
Através do noticiário internacional conheci um lado do Qatar, Emirados Árabes Unidos, Bahrain, Kuwait e Arábia Saudita que é surpreendente e intrigante. Eles não estão recebendo os refugiados sírios em seus países.
Se você fizer uma busca na internet encontrará diversas explicações não convincentes. Uma delas afirma que os países do Golfo não assinaram a Convenção dos Refugiados de 1951. Outra fonte diz que eles já receberam refugiados como trabalhadores temporários, mas "não podem" conceder visto permanente. Estão superlotados? Alguns se justificam através da doação de altíssimas quantias em dinheiro. De que maneira essas questões os impedem de acolher os refugiados e dar asilo político?
Sinais de saúde financeira são inegáveis. Dubai e Riad estão entre as 20 cidades mais visitadas do mundo. Os dois prédios mais altos do planeta estão nos Emirados Árabes Unidos e na Arábia Saudita. O Qatar é o país mais rico dos quase 200 existentes nesta terra. Kuwait é o 19º na mesma lista. Três companhias aéreas do Golfo figuram entre as 10 melhores do mundo. A moeda de Bahrain é a segunda mais valiosa do mundo. Eles têm recursos para essa acolhida. Por que não?
Alguns pais e mães de países europeus deram entrevista dizendo que decidiram receber refugiados em casa depois que viram a imagem do menininho sírio na praia turca. A atitude dos cidadãos da Islândia pressionando o governo local a organizar a acomodação dos sírios em seus lares foi tocante. Será que as mães e pais muçulmanos nesses países não sentem vontade de acolher os refugiados que professam a mesma fé em suas próprias casas?
Acompanhei pelas redes sociais um casal de blogueiros brasileiros que estava na Áustria e mostrou como Viena estava respondendo aos milhares que chegavam. Muitos brasileiros fizeram doações para comprarem produtos e entregar no centro de apoio. Famílias austríacas estão dirigindo até a fronteira e trazendo refugiados em seus próprios carros. A geografia ensina que a Arábia Saudita é 25 vezes maior em território do que a Áustria. Por que os refugiados estão fugindo para o Ocidente e não para o Oriente Médio?
Senti uma ponta de orgulho quando li no inglês "Daily Mail" sobre os sete mil sírios que estão no Brasil. Estou acompanhando o trabalho humanitário que está sendo feito em São Paulo por um conhecido. Sei que pelo menos esses sírios foram bem acolhidos. Por que os países árabes não estão fazendo mais pelos refugiados?
Há um mar de diferenças entre Brasil, Islândia, Áustria e Síria. Não parece mais lógico e sensato que os refugiados sejam realocados em contextos parecidos em termos de costumes, crença e língua? Afinal, a Arábia Saudita é o berço do islamismo. Meca e Medina estão lá. São mais próximos geograficamente e o idioma é o mesmo. Por que eles não reagem de forma acolhedora ao assistir as famílias sírias se afogando no Mediterrâneo?
A Anistia Internacional declarou que a reação das nações do Golfo a esse desastre humanitário é "uma vergonha". Que países são esses? Por que eles não demonstram compaixão? Por que eles não se movem de forma relevante?
Na minha busca por respostas fugi das fontes ocidentais e me deparei com um artigo do Al Jazeera, tradicional voz do mundo árabe. O autor do texto diz que "essa é a oportunidade dos governos árabes demonstrarem superioridade moral e liderança política". Concordo com o Al Jazeera. É uma oportunidade.
Afinal, por que os países do Golfo Pérsico não estão acolhendo os refugiados sírios?

ADRIANA PASELLO é professora e blogueira de viagens em Londrina



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