Quanto custa uma vida? A pergunta é mera retórica e não carece de resposta, por óbvia que seja. Não tem preço. É por isso que chega ser aviltante que em pleno século XXI, em meio a descobertas tecnológicas de toda natureza, o Brasil ainda sinta na pele as mazelas de doenças tropicais típicas dos séculos passados. O avanço da febre amarela na região mais rica do País é apenas um sintoma do quanto a saúde da nação está debilitada. Há mais. Estudo feito pela consultoria Sense Company, que faz análises econômicas para empresas farmacêuticas, aponta que o Brasil já sofreu um prejuízo de no mínimo R$ 2,3 bilhões com o avanço das doenças transmitidas pelo Aedes aegypt em 2016 – notadamente, dengue, zika e chikungunya. Juntas, elas somaram naquele ano cerca de 2 milhões de casos, uma picada mortal na saúde pública e nas finanças de quem mal consegue controlar os gastos. Em números, um impacto de 2% no Produto Interno Bruto (PIB).
No País dos valores invertidos, não é de assustar que os brasileiros tenham mais acesso ao telefone celular do que à água tratada. Já são mais de 200 milhões de aparelhos ativos no Brasil, superando a própria população, conforme outro levantamento divulgado nesta semana, enquanto o Instituto Trata Brasil estima que um milhão de brasileiros segue vivendo sem saneamento básico.
A pesquisa sobre os gastos da dengue levou em conta os custos de combate ao mosquito (por repasse de recursos federais para larvicidas e inseticidas, por exemplo), os custos médicos para diagnóstico e tratamento das doenças e os custos indiretos, pela falta ao trabalho por causa da doença e consequente perda da produtividade.
E o valor pode ser muito maior, segundo os próprios autores do estudo, uma vez que não levou em conta prejuízos de longo prazo com a microcefalia e outras doenças neurológicas, por exemplo, nem com a morte de alguns pacientes. "É daí para cima", afirma professora do Insper, fundadora da Sense Company e líder do estudo, Vanessa Teich.
E por mais que os gastos cresçam, se mostram também inócuos e não passam de gastos mesmos. Os pesquisadores afirmam que não têm efeito de longo prazo porque visaram combater ações emergenciais de epidemia. Ou seja, não há investimento em prevenção para evitar novos surtos. Gastou-se em larvicidas, em agentes de combate às endemias, em centros de reabilitação para quem já teve complicações decorrentes da dengue, da zika e da chicungunya. Se é certo que o poder público falha nas ações, a população também não pode deixar de ser responsabilizada pelo agravamento da situação, uma vez que o princípio básico para se eliminar os focos do mosquito está no conceito de higiene pessoal. É no mínimo manter a casa limpa, sem água acumulada. Sem consciência coletiva, continuaremos reféns da velha política de enxugar o gelo.

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