Por que ninguém luta pelos direitos da maioria?
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sábado, 07 de abril de 2007
Rosângela Vale<br>Especial para a FOLHA 
O educador Virgílio Tomasetti Jr acompanhou os episódios recentes de violência nas escolas em Londrina e região. Com larga experiência no trato com crianças e adolescentes, conselheiro familiar em assuntos educacionais, ele discorda das análises sociológicas sobre as causas do problema. ''A violência não é política, não é ideológica, não está ligada apenas à miséria. A violência também está na classe média, na classe média alta, e isso acontece em todos os países do mundo. A Inglaterra tem registrado casos de violência praticados por meninos de 13 anos, com renda per capita altíssima'', observa.
Segundo Virgílio, o aumento de crimes se deve a três fatores básicos: o aumento da população mundial, gatilho para que tudo aconteça em progressão geométrica; a heterogeneidade das sociedades, pois diferenças geram conflitos, e a perda dos valores perenes dentro e fora da família. A falta de bons exemplos de nossos representantes políticos agrava e acirra a situação. A inércia da sociedade, entretanto, é o que mais assusta o educador.
''O que me deixa pasmado é ver que ninguém luta pelos direitos da maioria. Por exemplo: dois alunos delinquêntes em uma sala com mais 35 alunos colocam aquela sala em polvorosa. Todo mundo se preocupa com o direito dos dois, mas e os 33 coitados que estão lá tentando, a duras penas, um lugar ao sol, uma vida melhor pra si e para os outros, por que ninguém luta por eles?''
O melhor a fazer, para Virgílio, é dizer ''não'' aos delinuentes. ''E os pais que não deram limites, esses têm que ser punidos também'', ressalta. O educador se diz indignado com a falta de atenção da mídia com a professora que perdeu o bebê na escola de Rolândia. ''Eu não vi direitos humanos nesse caso; vi só gente preocupada com os que estão lá. Por que 40 alunos têm que comprometer a vida de 1.800?''
O que se deve fazer na sua opinião?
Uma exclusão mesmo. Vamos ter a coragem moral de dizer ''não queremos esses delinquentes junto a outras pessoas normais''. Nenhum professor vai querer dar aula para aluno sabendo que pode ser agredido na aula seguinte. Porque desse jeito não existe aula. Então, tem que punir sim. O governo que arque com isso. O Brasil é o país que mais arrecada impostos no mundo. Ou então a sociedade como um todo que ajude, mas ajude de maneira exclusa, e não forçando os delinquentes dentro das escolas. Cada escola tem o seu projeto psicopedagógico; se o aluno não se adaptar a esse projeto, ele que saia. A sociedade está usando muito mal os artifícios que tem na mão. Se o aluno agredir a professora, ela tem o direito de colocá-lo na cadeia. E de torná-lo não mais réu primário. Em países desenvolvidos, como os da Europa, não se discute maioridade penal. Se o aluno de 14 anos agrediu a professora, ele vai para a cadeia.
A sociedade deveria fazer o trabalho do governo?
''O que me espanta muito é esse negócio: ''Não está acontecendo com a gente''. Hoje são os professores que estão sendo agredidos, amanhã serão os médicos. O governo não vai fazer nada a respeito, já desarmou a população; deixou a arma nas mãos dos bandidos. Então é melhor a sociedade se mexer e exigir, sim, guarda municipal e participação de civis nessa questão. Quanto mais caótica a situação, melhor para os políticos. De qualquer partido.
O comportamento dos jovens não mudou demais nos últimos tempos? Isso não explicaria em parte a violência?
A violência sempre existiu na mesma proporção. Não há nada de novo no front. Uma vez acharam uma carta, escrita 500 anos antes de Jesus Cristo nascer. E essa carta dizia assim: A juventude de hoje não mais respeita os pais. E não mais se prepara para a guerra. Ao contrário, se prepara para os prazeres. A juventude de hoje, principalmente a mais rica, se diverte estuprando suas escravas e matando por prazer seus escravos. Eu não vejo futuro na juventude''. Isso foi escrito há mais de dois mil anos.
Quais são as causas da violência hoje?
Nós vivemos em um mundo com seis bilhões e meio de habitantes. Então os problemas acontecem em progressão geométrica. Aprendi uma lição em uma aula de sociologia quando eu tinha 20 anos: quanto mais heterogênea for a sociedade, mais violenta ela será. Eu acredito muito nisso. Se a sociedade tem valores heterogêneos, isso gera mais demência. Hoje o mundo está virando multiracial, com valores diferentes.. Vamos pegar 8 milhões de pessoas, em São Paulo, nordestinos, sulistas e tudo mais... E 8 milhões de uma raça só, por exemplo, suecos. Haverá muito mais crimes em São Paulo. E não é só por causa da pobreza. Eu posso citar uma sociedade rica, porém com valores diferentes: haverá mais crimes nessa sociedade. Os valores nunca estiveram tão heterogêneos em um lugar só. E essa diversidade, que torna o mundo tão lindo, também é causa da violência. Eu vejo o mundo de um jeito, você vê de outro: haverá um conflito.
Estamos vivendo uma crise de valores perenes?
Hoje os valores são efêmeros. Nem a própria família acredita nos valores. E as autoridades dão provas inequívocas de que eles próprios não têm vergonha na cara. O rabino maior do Brasil foi preso em Nova York roubando gravatas, quer dizer, o que faz um homem, que é um homem de Deus, que acredita no Velho Testamento, roubar gravatas? É difícil até para mim, que sou um homem de 55 anos de idade e de cabelos brancos, entender isso. Aqueles que deveriam ter os valores interiorizados, aqueles que são os condutores da sociedade são os que mais roubam e praticam crimes. Nossos governantes querem poder pelo poder, e não para tornar a sociedade melhor. Os partidos e os discursos são apenas panos de fundo para uma grande verdade: o poder pelo poder. Olha o discurso do Lula sindicalista e o discurso do Lula presidente. Olha o Fernando Henrique Cardoso, professor da Sorbonne, e olha o vaidoso FHC querendo a reeleição, e tendo que comprar todos os políticos para conseguir.
Uma das maneiras de mudar isso seria a família educar com valores mais rígidos?
É uma forma de se evitar a violência. Nós sabemos que os limites são dados à criança dos 2 aos 5 anos. Se nessa fase a criança não tem limites, dificilmente vai conseguir ter limites lá na frente, como está acontecendo hoje. Se a família, que é a célula mãe da sociedade, não impõe limites, a sociedade vai impor. A escola intermedeia a educação. Ela não é tão doce como a família, e não tão dura quanto à sociedade. Se num primeiro plano a família falha, no segundo plano falha também a escola, aí a sociedade é que vai aplicar a correção. E a sociedade é coercitiva, ela não dá prêmios, ela não reforma ninguém, porque não tem capacidade. Nem aqui, nem na Dinamarca eles têm capacidade de reformar delinquentes Essa história de que a sociedade vai reformar o indivíduo é só papo de teórico da educação, de sociólogo de plantão, que não entende nada do assunto. Eles acreditam que uma sociedade justa vai ter menos violência. Eu concordo, mas vou esperar mil anos por isso? E o que é sociedade justa? É fazer igual Cuba? Lá a polícia é violentíssima. A primeira cena que eu vi em Cuba foi de um cidadão livre querendo entrar em um restaurante e a polícia não deixou. Foi uma utopia acreditar que a Cuba de Fidel Castro ou a Rússia iriam conseguir alguma coisa. Eles foram mais violentos que a própria direita. O problema não é ideológico, nem político, nem econômico. Ainda que o Brasil inteiro fosse um país de ricos, não resolveria o problema. Ajudaria, mas não resolveria.


