Não assinarei este artigo como socióloga, nem como professora universitária, nem como escritora, como sempre faço, para que não me cobrem de forma artificial e ardilosa a razão. Assinarei como cidadã brasileira movida pela ‘‘paixão’’ que é a mesma de um pensador liberal que viveu no século passado, e cujo nome era Charles Alexis Clérel de Tocqueville. Escreveu ele a um amigo estas palavras que faço minhas, e com as quais quero começar esse texto onde solto minhas amarras, arregimento minha coragem e elevo bem alto meu brado de liberdade de expressão: ‘‘Atribuem-me paixões e tenho somente opiniões; ou melhor, tenho uma paixão apenas, o amor a liberdade e a dignidade humana. A meus olhos, todas as formas governamentais são exclusivamente meios mais ou menos perfeitos de satisfazer a esta santa e legítima paixão do homem.’’
A partir disso explico por que digo não ao PT. Antes, porém, ressalvo, que esse partido, é claro, já não é mais o mesmo que brotou da vertente sindical no ano de 1980. Por exemplo, não é o que em 1987 pôs fogo em exemplares da Folha de Londrina em frente ao prédio em que funciona o jornal, porque certas matérias não agradaram aos petistas. Hoje, em vez de ataques pirotécnicos raivosos, eles escrevem em jornais.
O PT, mudou, é verdade. Não é mais um partido de proletários ou de trabalhadores manuais. Além de se associar ao grande capital representado, por exemplo, pela plutocracia de São Paulo, virou um partido da classe média dos intelectuais, dos universitários, dos bancários, dos profissionais da área da saúde, dos funcionários de empresas estatais e do serviço público. O certo seria portanto dizer, que houve um razoável crescimento do PT em 20 anos.
Em todo o caso, de transformação em transformação aconteceu o inevitável: o PT se tornou um partido igual aos outros. E se alguém me contrariar, apostando na tão propalada ideologia petista, que faça um teste. Pergunte aos militantes e aos dirigentes, em nome de que socialismo ele se apresentam. Nenhum deles saberá responder, porque o socialismo que praticam é o de conveniência. No último Congresso Nacional do partido, que objetivava determinar com mais clareza a questão do socialismo, a única conclusão a que se chegou foi a seguinte: ‘‘Fora, Fernando Henrique’’. Ou seja, era preciso defenestrar um presidente que foi eleito democraticamente pelo povo duas vezes, porque democracia é coisa burguesa.
Mas há traços que não mudaram no PT, e por isso digo não a esse partido. É que ele continua intolerante, porquanto dotado de um teor religioso que o transforma numa seita fundamentalista. Assim, o PT se julga dono da verdade, e reage mal contra quem ousa contrariar seus dogmas. É um partido que expurga, ameaça, processa e censura aqueles que não rezam por seu catecismo, tudo dentro de um vezo stalinista.
O PT é autofágico. Devora seus melhores quadros. Voltou-se contra Erundina, em São Paulo, Vitor Buaiz, no Espírito Santo, Luiz Eduardo Cheida, em Londrina, Jacó Bittar, em Campinas, e tantos outros que ousaram transpor o círculo formidável que o partido traça ao redor de todos os companheiros.
O PT é obscurantista. Prega o calote da dívida externa, o fechamento ao capital externo, a agricultura do cabo de enxada. Tudo em busca da cubanização brasileira. Diria que progresso incomoda esse partido, que prefere o quanto pior melhor que lhe abriria espaços para emplacar seus salvadores da Pátria.
O PT é autoritário. Fala em democracia, se apresenta com sorrisos suaves mas sabe intimidar pela violência dos seus atos e pelo patrulhamento aos que ousam contradizê-lo.
O PT prega o arbítrio, pois para seus membros a lei nada vale. Mas sem as leis, mesmo que imperfeitas, como conviver em sociedade? Com tribunais de exceção, que se baseiam em caprichos ideológicos e são comandados por tiranos?
O PT se diz de esquerda e leva o mesmo tipo de vida da direita; estimula invasões de propriedades de maneira violenta em nome de um simulacro de reforma agrária, mas não defende os assentados quando a ‘‘máfia’’ instalada na cúpula do MST cobra ágio e pedágio sobre o dinheiro público que lhes é destinado; ataca seus adversários de forma implacável e quando estes reagem apela para o bom-mocismo e se vitimiza.
E para culminar, petistas costumam ser arrogantes apesar de demagogicamente acenarem com programas de cunho popular. Como certa vez escreveu o jornalista João Mellão que os petistas ‘‘não ouvem nem o povo nem ninguém, porque acreditam falar diretamente com Deus. Aliás, creio que até esse hábito eles perderam. Quando Deus telefona, eles o deixam esperando na linha.’’
Por todos esses motivos, e de acordo unicamente com minha consciência, digo não ao PT. Se um dia esse partido me convencer de que estou errada lhe direi sim.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA, cidadã brasileira
E-mail: [email protected]

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