Por que não nos importamos com o genocídio negro?
Jaqueline Vieira
A imprensa internacional repercutiu em junho o assassinato (alguns atribuem preconceito racial, outros intolerância religiosa, outros terrorismo, eu uno os três) de nove pessoas negras em uma igreja no sul dos Estados Unidos - Charleston, Carolina do Sul. A notícia trazia a seguinte expressão: "Homem branco abre fogo e mata 9 em igreja de comunidade negra nos EUA".
A comunidade negra afro-descendente dos Estados Unidos, diferente da comunidade negra afro-descendente no Brasil, tem construção identitária. Essa construção mostra-se presente nas manifestações que vemos tomar o país (mais especialmente o sul, com maior densidade de população negra) em novos movimentos de levantes iniciados em 2012 e reforçado em 2014 com o assassinato do jovem negro Michael Brown.
A segregação racial imposta que viveu o país (e não apenas ele, a África do Sul e mais alguns países colonizados) nas décadas passadas não teve fim. O fim foi apenas burocrático. A consciência de identidade então tomou frente a raça negra norte-americana. Antes institucionalizado e racional, o racismo passou a ser estrutural e cognitivo. E, junto a isso, continuou a ser praticado. Um crime perfeito.
Mas qual a diferença entre o Brasil e o EUA neste ponto? A diferença está na construção de identidade. Não temos no Brasil.
Na manhã de 23 de junho, recebi a notícia de que um primo de terceiro grau foi assassinado no Jardim Paraíso, em Londrina. Um adolescente de 15 anos. Foi assassinado junto a outro jovem de 16 anos. Dois adolescentes negros assassinados. Entraram para a estatística subalterna da expectativa de vida dos jovens negros brasileiros.
Serão atrelados a discursos que não estavam no caminho do bem, por isso, arcaram com suas vidas. Mas por quê? Já nos perguntamos? Por que eles não estão no caminho do bem? Por que permanecem com esteriótipos de um regime escravocrata que perdurou mais de 300 anos em nosso país?
Ninguém irá para as ruas questionar e pedir o fim do genocídio negro no Brasil. Diferente do que acontece nos países com construção identitária. Mas, ressalvo, estes ainda estão longe de pôr fim ao racismo.
Aqui, por não termos uma "segregação física", quero dizer, por não ter sido burocrática, não se vê o inimigo. Não se vê o racismo rancoroso impregnado. Isso tem agravado nossas lutas.
No Brasil existe a lei 10.639/03 que torna obrigatório o ensino da história e cultura negra e afro-descendente na educação. Acabaram de votar o plano municipal, estadual e irão votar o nacional de educação e retirar a palavra - étnico-racial - das emendas do ensino. Passando por cima da lei federal, tornando ainda mais distante o sonho de uma construção de identidade.
Por mais quanto tempo não nos importaremos com o genocídio da população negra?
O antropólogo africano Kabengele Munanga, radicado no Brasil, questionou recentemente: "Quem tem medo de um negro que sabe?".
Por que não querem nos deixar saber? Somos o país que mais mata, assassina e trucida sua população negra no mundo (dados da Anistia Internacional, ONU, ABA e outros). Genocídio étnico-racial praticado em nossas portas, mas ninguém se incomoda.
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