Bastou o governo federal acenar com redução nas remessas de verbas para Estados e municípios que imediatamente governadores e prefeitos entraram em pânico e começaram a adotar medidas de contenção dos desperdícios e da farra com o dinheiro público. E, por instinto de perversidade e para fazer chantagem vão atingir primeiro a área da saúde, porque esta machuca diretamente na carne dos cidadãos, e depois a da educação e da segurança, dois outros pontos sensíveis.
Agora o governador do Paraná anuncia que vai cortar gorduras na folha de pagamento daqueles comissionados indicados por critérios políticos. Mas só 20%, porque o grosso deles vai continuar. (É que o deputado-chefe não deve ter autorizado mais). Também vai cortar gratificações dos secretários e dos delegados. E anuncia que os 1.500 servidores com duplicidade de funções terão de optar por uma das ocupações. E que os 7.000 servidores com funções gratificadas também podem ser chamadas para o ‘‘sacrifício’’.
A gente não sabia que havia 1.500 servidores com duplicidade de funções e 7.000 com funções gratificadas. O governador sabia. E por que só agora tomou providências?! O governador estava com a mão em nossos bolsos e nós não sabíamos!
Mas o grande ralo nem é essa gordura, mas o excesso de contingente, o excesso de aparato para sustentar a máquina pública, sempre vagarosa e pouco operante, é o desperdício, é a mão farta que privilegia aqui e ali, é a conta alta consentida, é o gasto monumental com a sustentação da marca.
Os governos vêm há muito tempo surrupiando o leite dos nossos filhos, porque somos nós, através dos impostos e tarifas e taxas e multas e custas disto e daquilo, que pagamos a conta. Sai da boca das crianças.
Quanto mais dinheiro é drenado do meio circulante e entra nos cofres do governo, mais pobres ficamos.
Um povo viveria muito bem sem governos. (Os italianos, depois de muito tempo, descobriram que era mais importante para a nação o presidente da Fiat que o primeiro-ministro. Não é à toa que trocam de governante a cada mudança de estação e isto não abala a república, mas ao contrário, a Itália vai muito bem, exportando soluções empresariais, bons vinhos, boas massas, bons chocolates, boas roupas, boas máquinas, bons automóveis. Só não exportam italianas, porque estas, eles ficam com elas, eis que não são bobos).
Incrível a irresponsabilidade dos governantes brasileiros com o dinheiro público, desde os presidentes, passando pelos ministros, parlamentares, governadores, deputados estaduais, prefeitos, vereadores, até chegar aos escalões do funcionalismo burocrata e atravancador do progresso. Essa gente faz farra com o dinheiro do povo. Entra governo e sai governo, e nada muda, porque governantes são todos iguais. (Vale sempre lembrar, até para ser coerente, que governante é um produto egresso do meio).
Estas notícias de cortes fazem aflorar as barbaridades.
Deu na ‘‘Folha’’ desta terça o bordel de esbanjamento que é a Assembléia Legislativa do Paraná, regida há quatro décadas pelo deputado-chefe. No ranking dos farristas, é a quarta, só perdendo para Alagoas (lá não se estranha), para Pernambuco (lá também não se estranha) e para Minas Gerais (sendo lá, se estranha). Aqui os ganhos mensais dos fiéis escudeiros do deputado-chefe (excluído aí o Doutor Rosinha) chegam a R$ 16.200, somadas as mordomias. Cada um dos 54 (pra que tantos, se só um é que manda e decide?) tem mais R$ 13 mil e meio para assessores, afora a frota de veículos à disposição, mais a gráfica da casa para que eles nos remetam as cópias de seus discursos. Também deu na ‘‘Folha’’: no ano passado elas gastaram R$ 70,309 milhões. E diz lá: R$ 7,580 milhões a mais do que estava no orçamento.
E o deputado-chefe, que vegeta da coisa pública e, só ele já criou 50 municípios - para aumentar o empreguismo e seu próprio suporte político - diz que está tudo certo e dentro dos conformes pela lei dos seus pares do altiplano, que estabeleceram que os colegas menores têm direito a 75% dos ganhos deles. E mais não se questionou e nem foi perguntado.
Seria preciso, na Assembléia também, eliminar as gorduras. (Por favor, não interpretar com duplo sentido).
Resumindo: se o governo mostra agora que tem tanta coisa para cortar, o que se pergunta, com mágoa e tristeza e um sentimento de revolta e impotência, é por que não cortou antes e por que nos sacrificou tanto durante tanto tempo!
- WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina

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