Por que complicar?
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de abril de 2003
Luiz Meneghel Neto 
Recentemente, uma Missão Técnica da União Européia esteve no Brasil e não aprovou o sistema de rastreabilidade bovina adotado no país. Criado, entre outras atribuições, para atender às exigências do Bloco Europeu, o Sistema Brasileiro de Identificação e Certificação de Origem de Bovinos e Bubalinos (Sisbov) cometeu, a meu ver, um dos maiores equívocos com o setor agropecuário: não se importou, durante a sua implantação, com a opinião dos criadores.
Temos o maior rebanho comercial do mundo, com 170 milhões de cabeças, e sabemos que para continuarmos competindo com outros países produtores de carne, o programa de rastreabilidade é imprescindível. Mas, com um custo para o criador que varia entre R$ 4 ou R$ 5 por cabeça é inaceitável. Dados apurados em fevereiro, pelo grupo DBO Rural, mostram que apenas 4 milhões dos bovinos estão registrados nos bancos de dados das empresas certificadoras credenciadas pelo Sisbov.
Poucos especialistas do setor perceberam o alto grau de insatisfação dos produtores rurais maiores interessados e grandes responsáveis pelo êxito do processo com os procedimentos verificados em mais de um ano de vigência do Sisbov. O que se viu, neste período, foi um jogo de empurra-empurra. As empresas certificadoras, ávidas pela implantação rápida do programa, atribuíam que os custos com a rastreabilidade deveriam ser repartidos entre os criadores e os frigoríficos. Os proprietários dos frigoríficos, por sua vez, se diziam contrários, e afirmavam que todos os encargos deviam ser cumpridos pelo pecuarista. E o Governo Federal? Fez como no ditado popular, lavou as mãos, e quis que o setor resolvesse entre si todos os custos com o programa. Mais uma vez para quem sobrou a conta? É claro, para nós, criadores.
Em poucas regiões do Brasil, como no Paraná, algumas ações foram implementadas para minimizar este sacrifício. Estima-se que o credenciamento da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Paraná (Seab), em dezembro de 2002, pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), poderá proporcionar, em breve, uma redução no custo do programa da rastreabilidade.
No ano passado, pedidos de credenciamento feitos por algumas associações de criadores foram negados pelo Mapa. Técnicos que, naquela época, faziam parte do Governo Federal, afirmavam que as instituições eram parciais e poderiam dificultar a implementação do Sisbov. Se os criadores são os principais interessados pelo bom desempenho da atividade pecuária no país, de que forma instituições como a Associação Brasileira dos Criadores de Limousin (ABCL), a ABCZ e outras associações poderiam atrapalhar o processo? Por que não aproveitar todas as informações geradas, há décadas, por estas instituições e reduzir o custo para o produtor rural? Alguém, por acaso, acredita que uma Associação de Criadores funciona sem o respaldo e a fiscalização do Mapa?
Por que complicar? Não seria mais fácil contar com a participação de todos os elos da cadeia produtiva e começar o processo de baixo para cima, ou seja, de quem está mais próximo do criador, que pode conscientizá-lo e quer ver o setor crescer cada vez mais.
LUIZ MENEGHEL NETO é presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Limousin


