Atualmente, tem sido bastante comum os ataques ideológicos às universidades brasileiras, colocando-as como espaços de sectarismo, de comunismo, de totalitarismo e de "ismos" genéricos. A adjetivação frequentemente encontrada é a de "esquerdista". Ao se notar de onde partem esses ataques e seus sujeitos, encontramos jornalistas, políticos, setores conservadores e vários ressentidos com a política e com a universidade. No imaginário, ainda entendem as universidades como aquelas dos anos 1970: espaços de formação das elites e seus conjugados.
Embora haja um intuito muito claro por traz dessas acusações, desconsideram as profundas transformações que ocorreram ao longo dos últimos tempos. A diversificação das classes sociais, de raças e gêneros e a entrada de setores que outrora estavam alijados do ensino superior, foram processos fundamentais de diversificação social. Mesmo em condições precárias, as universidades ainda são vistas como um espaço para a ascensão social.
Por isso, interessa à universidade o debate público. Interessa a compreensão crítica dos fenômenos que têm ocorrido em nossa sociedade. Especialmente, quando estes estão conduzindo acirramentos de opiniões ou polarizações ideológicas.

Basta olharmos para o cenário atual da política educativa. Quando a universidade discute projetos como a MP 746/2016, sobre as reformulações do ensino médio, ou mesmo, os projetos de lei da escola sem partido, busca-se colocar na ordem do dia os problemas reais do cotidiano de alunos e professores que podem sentir resultados nefastos com esses projetos.

A primeira constatação, por sinal, provém da visão autocrática de sociedade contida nesses projetos. Em suas entrelinhas afirmam que as discussões sobre a educação não serão conduzidas de forma "participativa", pois contém imposições de determinados pontos de vistas. Por se dizerem neutros, desconsideram os problemas sociais presentes na educação.

A presunção de seus propositores e defensores é algo cabível. Mas cabível apenas se olharmos para o passado como um modelo a ser seguido. Argumenta-se que, professores e alunos, ao se colocarem contra tais projetos estariam sendo complacentes com uma visão de mundo ideologizada e corrupta. Mas não é de estranhar que muitos desses defensores combatam a visão progressista da sociedade? Eles enfatizam uma velha e conhecida fórmula: os críticos de tais projetos "neutros" são esquerdistas, comunistas, etc.

O limite dessa dicotomia é conhecido na análise daqueles que são os críticos. Nesses pontos de vista não há o esquerdismo patologizante de que se acredita. Mesmo porque, a discussão política na universidade hoje é algo residual, sinal das desilusões representativas recentes. Há sim uma pluralidade de ideias e de concepções que, pelas regras democráticas, devem se tornar guias do debate público. Essa pluralidade é irredutível.

Outro sinal autocrático presente nos meandros do debate conservador é a tentativa de desqualificar a pluralidade de pensamento em termos morais. Muitos "pseudointelectuais" e oportunistas do vazio do pensamento têm defendido essa linha, prestando um papel ultraje ao pensamento filosófico, reduzindo-o aos argumentos totalitários de identificar que o outro é sempre ausente de razão por ser ideológico. A estranha associação entre "defensores da corrupção" e aqueles que dizem que o "impeachment foi um golpe" representa esse ponto.

A redução autoritária é um fato dado àqueles que não observam a política como um jogo complexo e relacional, mas como um mero jogo de manipulação. A democracia brasileira entrou em profundo risco e, por isso, fomentam-se os debates nas universidades. Pois ainda há nelas pessoas preocupadas com os rumos da democracia e da política atual, independentemente das benesses do poder e das ludibriações do tecnicismo do saber.

PABLO ALMADA é doutor pela Universidade de Coimbra e professor de Sociologia da Universidade Estadual de Londrina

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