Por que a IA não irá roubar seu emprego?
É preciso levar em conta que o uso de ferramentas de inteligência artificial é um caminho sem volta
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sexta-feira, 09 de janeiro de 2026
É preciso levar em conta que o uso de ferramentas de inteligência artificial é um caminho sem volta
Lacier Dias 
Se pudéssemos fazer uma retrospectiva das perguntas ou questionamentos que mais foram feitos ao longo de 2025, tanto na sala de aula entre meus alunos quanto na sociedade como um todo, talvez uma esteja no topo: “A Inteligência Artificial (IA) vai roubar meu emprego?”. Essa pergunta, entretanto, quase nunca é sobre tecnologia. Ao contrário, é sobre medo e incerteza, porque o mercado também sofre com a polarização. De um lado, manchetes dizendo que “acabou o trabalho”. Do outro, vendedores prometendo que “IA resolve tudo”.
E no meio disso tudo há um ingrediente tipicamente brasileiro: um empresariado que quer acreditar que tecnologia é atalho para compensar falhas históricas de gestão. O resultado é previsível. Medo de um lado. Ilusão do outro. Nessa receita, está uma tensão que pouca gente quer encarar, mas que é fundamental entender e compreender: A IA não está “roubando empregos” de forma automática. A questão não é nem se irá ou não roubar esses postos de trabalho. A grande questão é que o que está acontecendo é ainda mais incômodo: A IA está expondo a maturidade de pessoas e empresas.
Em primeiro lugar, é preciso levar em conta que o uso de ferramentas de inteligência artificial é um caminho sem volta. É inevitável e irreversível. Diante disso, minha tese é simples e pragmática: a IA é um amplificador. Amplifica times bem geridos, com processo, dado e critério. O contrário também é verdade: amplifica o caos, o improviso e a irresponsabilidade organizacional. E, por isso, sustento uma posição que contraria o discurso fácil: quem vai perder espaço não é quem “não sabe usar IA”. Quem vai perder espaço é quem não desenvolve pensamento crítico, domínio do contexto e capacidade de decisão.
Mesmo explicando aos alunos ou aos questionadores toda a realidade que está por trás disso, sempre ouço o contra-argumento de que algumas funções ou tipos de trabalho irão deixar de existir. E concordo plenamente com uma parte correta dessa frase: funções repetitivas e mal desenhadas tendem a ser automatizadas. É natural. É como aconteceu na Revolução Industrial do Século XVIII e XIX, é como aconteceu com o advento da internet no fim do século XX e início do século XXI e é o que está acontecendo agora com a inteligência artificial.
Mas a conclusão que muita gente tira é equivocada: tentam substituir gente antes de substituir desorganização. E o problema é sempre mais profundo. Empresa nenhuma sustenta competitividade de longo prazo sem seres humanos. Não por romantismo. Por pragmatismo organizacional. Afinal, a IA não assume responsabilidade, não responde por cultura, não sustenta confiança. Quem faz isso é sempre um ser humano. O futuro não é uma “empresa sem pessoas”. Pelo contrário, as pessoas continuarão sendo importantes para o organograma organizacional de uma corporação. O futuro reside em empresas com pessoas mais bem preparadas para trabalhar com IA, numa lógica de gestão híbrida.
E os resultados que se têm alcançado com pessoas que estão preparadas para utilizar ferramentas de IA são aumento real de produtividade e uma gestão eficaz do tempo e dos recursos empregados. E isso inclui o redesenho de uma organização laboral que já não corresponde à realidade, mudando funções e cargos. Entretanto, as empresas que estão implementando a IA em seus departamentos sem preparar suas pessoas estão tendo resultados catastróficos: mais ruído do que resultado, medo e resistência interna e pressão por corte de custo.
E aí as empresas correm o risco de acharem que o maior risco é a implantação da IA em vez da falta de preparo de uma liderança que decide sem critério. Por isso é urgente que nossas organizações caminhem no sentido de preparar as pessoas em vez de ficarem se debatendo com o mau uso da IA dentro dos processos organizacionais.
Lacier Dias, especialista em estratégia, tecnologia e transformação digital, professor doutorando pela Fundação Dom Cabral e fundador e CEO da B4Data


