Ainda há alguma coisa de profundamente errado em nosso País quando o setor rural é discriminado. E ele vem sendo discriminado diante das normas trabalhistas inadequadas, das altas taxas de juros, da questão tributária, das dificuldades de financiamento, dos índices irreais de produtividade do Incra, dos mandatos de reintegração de terras não cumpridos, da reforma agrária equivocada que coloca o produtor rural como refém de grupos organizados que, da noite para o dia, destroem suas propriedades e aniquilam seu gado, quando não usam de chantagem e ameaças de toda sorte.
É realmente estranha e incompreensível a discriminação de um setor como o do agronegócio, que tem representado 40% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, o equivalente a U$$ 300 bilhões, e que emprega 52% da população economicamente ativa. Este aspecto discriminador aparece claramente, por exemplo, com a crise do algodão, quando 800 mil pessoas ligadas ao setor perderam seus empregos. O mesmo ocorre com o setor sucroalcooleiro, que pode deixar milhares de brasileiros sem trabalho. Observe-se que os 2.800 trabalhadores da Ford, recentemente despedidos, conseguiram resolver sua questão recebendo para isto todo apoio governamental. Nada, contudo, é feito a favor dos que vivem do agronegócio. Porém, se a indústria é um dos pilares do desenvolvimento do País, a agricultura é outro, e não faz sentido privilegiar o primeiro e discriminar o segundo.
A discriminação também se torna nítida quando a imagem do produtor rural ainda é associada à dos senhores de terras do passado colonial, os quais, apesar de terem cumprido sua função histórica, imprimiram na memória coletiva a indelével reminiscência de um cruel senhor de escravos, apesar de que nem todos os senhores patriarcais usaram de violência ou de opressão para com aqueles que trabalhavam em seus domínios, mas sim lhes proporcionaram proteção e maneiras de sobreviver nas inóspitas e dificílimas épocas de nossa formação.
Persiste, pois, a discriminação do meio rural, tanto por parte do governo quanto de grupos sociais preconceituosos ou ideológicos, os quais se baseiam em estereótipos sem nenhuma ligação lógica com a realidade do Brasil de hoje.
Entretanto, urge romper com essa mentalidade nociva para o próprio País. É imperativo que entremos no novo milênio sustentados por esperanças no sentido de superação da crise que se abateu sobre nós no início deste ano, mas para isso o setor agrícola e o agronegócio brasileiros têm de assumir inteiramente a importância e o respeito que já desfrutam no exterior.
Vale aqui lembrar que o problema do desemprego, fenômeno mundial que no Brasil assume contornos peculiares à sua realidade, encontra justamente no setor rural e no do agronegócio a grande parcela de sua resolução, na medida em que é capaz de gerar renda, oportunidade de negócios e de emprego e, inclusive, possibilita a inserção competitiva nos mercados mundiais.
Além do mais, como analisou em recente artigo Roberto Rodrigues, presidente da Aliança Cooperativa Internacional, ‘‘a renda rural deve crescer em 1999, apesar das cotações internacionais das principais commodities terem caído, até como reação da desvalorização do dólar internacional. Daí, aumentarão os investimentos no setor - inclusive de estrangeiros - a fronteira agrícola será ampliada, assim como o volume de produção, crescerá a participação brasileira no mercado mundial e, finalmente, nossa balança comercial poderá ser reequilibrada’’. A agricultura tem hoje a chance de cumprir seu determinismo, o de alavancar a viagem do Brasil para o Primeiro Mundo.
Para discutir essa temática de fundamental interesse para os rumos do País, a Sociedade Rural do Paraná, por iniciativa de sua diretoria, está promovendo hoje, 5 de março, o Seminário do Agronegócio. E entre expressivas autoridades políticas que deverão comparecer, já nos honrou com a confirmação de sua presença, o vice-presidente da República, Marco Maciel.
Desse modo, o Seminário do Agronegócio pretende ser um marco na discussão dos assuntos e das propostas de uma boa política para o setor e, ao mesmo tempo, ensejar o debate democrático das lideranças a ele ligadas em torno das aspirações dos agroindustriais.
Assim, se a 39ª Exposição Agropecuária e Industrial de Londrina, a se realizar de 8 a 18 de abril, propõe-se confirmar nossa região como o maior centro nacional de agronegócio, numa demonstração de força produtiva e potencial econômico, o Seminário do Agronegócio que a antecede objetiva alicerçar a formação política do setor rural, através da abertura de canais que permitem o diálogo produtivo entre agropecuaristas e detentores do poder político.
Completa-se assim um evento com outro, ambos marcantes não apenas para ruralistas e agroindustriais, mas para o País. Um país onde jamais poderia haver discriminação para com aqueles que, tendo sempre plantado o futuro, têm colhido prosperidade para todos.
- FRANCISCO LUIZ PRANDO GALLI é presidente da Sociedade Rural do Paraná em Londrina

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