Curitiba ''Eu pedi a Deus que o senhor fosse humano e ele me atendeu'', disse dona Rosalina ao final de uma audiência no Juizado Especial, em junho do ano passado. Para o juiz Roberto Portugal Bacellar aquela frase foi tão marcante que ele anotou na capa de sua agenda. ''Na minha interpretação, ela disse isso porque surpreendentemente se sentiu à vontade, conseguiu falar o que queria e entender o que foi dito'', analisa.
O juiz Roberto Bacellar, presidente da Associação dos Magistrados do Paraná (Amapar), diz que a Justiça, cheia de formalismo, palavras difíceis, cadeiras de espaldar alto e mesas elevadas, causa medo às pessoas mais simples. ''No fundo todos, advogados e juízes, resistem à simplificação. É bom falar uma linguagem que só o grupo entende. É sinônimo de nobreza, poder. Mas o tempo passou e devemos entender que a Justiça é para o povo. Se o juiz não souber falar a linguagem do povo, como fará Justiça?'' questiona.
Os juizados especiais já começaram a mudar a estrutura tradicional dos tribunais. As audiências acontecem em salas pequenas, numa mesa redonda em que as pessoas conversam de igual para igual. ''Até a cor das paredes influencia na comunicação, as roupas e a postura do conciliador podem determinar sucesso ou fracasso'', explica. Bacellar acredita que para aproximar a Justiça do povo é preciso que ela seja compreendida pelas pessoas, por isso já elaborou pelo menos cinco gibis que falam sobre Justiça, mediação, juizado especial, cidadania e democratização do Judiciário.
Para Bacellar, a linguagem técnica é necessária quando o advogado faz a sustentação oral, nos tribunais de Justiça e Alçada, em julgamentos de recurso, pois neste caso realmente é necessário ter a precisão técnica. ''Mas no fórum essa linguagem tem que mudar, chegar até a população'', defende. Ele diz ainda que o problema não está no mau uso da língua portuguesa e sim no Judiciário, que tende a ser complicado. O juiz lembra o caso de um magistrado paulista que indeferiu uma petição explicando: ''Se para provar o direito líquido e certo são necessárias 200 folhas, é porque não há direito''.
O juiz federal da 1 Vara Cível de Curitiba, Zuudi Sakakihara, chegou a coletar petições com erros de português e considera o maior problema não é a linguagem técnica e rebuscada, mas a falta de conhecimento da língua portuguesa. ''Tem que saber pedir. O que pode acontecer é que o juiz entenda a coisa diferente do que ele quer dizer, prejudicando o interesse do cliente por não saber comunicar corretamente'', diz. Sakakihara argumenta que o Direito não existe sem a linguagem, pois ''você pode ter todo o direito do mundo, mas se não souber expressá-lo para que o juiz entenda, não vale nada''. (M.K.)

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