O poodle ‘‘Pitico’’ ainda carrega nos pêlos as marcas do desastre ambiental que marcou a comunidade do Jardim Maria Lúcia (zona oeste de Londrina), no início de maio deste ano. O cachorro foi uma das vítimas do maior vazamento de óleo já registrado em Londrina, que atingiu o Ribeirão Lindóia.
  O Lindóia é apenas um entre as mais de duas dezenas de veios de água que cortam o perímetro urbano e estão ameaçados pela poluição, como a Folha de Londrina constatou percorrendo pontos em córregos e ribeirões da zona urbana. Eles sofrem com o despejo de resíduos de esgoto domésticos originários de ligações clandestinas, com vazamentos nas tubulações, com assoreamento e com o descaso da população, que continua jogando lixo no leito dos mananciais de água.
  O dono do animal atingido pelo acidente com óleo, o pequeno comerciante Carlos Sérgio Bueno de Godoi, conta que o poodle teve mais sorte que uma outra cadela também da família. O animal, da raça pastor alemão, mergulhou no ribeirão no auge do problema e não conseguiu sobreviver.
  Temendo a qualidade da água do Lindóia, o marceneiro Aparecido Rodrigo Meireles, teve que abortar a horta que iria fazer no quintal. Ele revelou que embora não tenha mais percebido óleo no leito do rio, as vezes ainda sente cheiro forte de óleo. Para tomar banho e para manter vivas as plantas da propriedade, ele tem que apelar para a água encanada, servida pela Sanepar. Mas já sentiu no bolso o resultado da troca. ‘‘A conta subiu bastante.’’
  A costureira Bernadete Lopes, que mora em frente à nascente do Córrego Bororé, na Vila Industrial, afirma que o mau cheiro que infesta o bairro é mais comum à noite e nos finais de semana. Ligações clandestinas de esgoto numa rede pluvial caem direto no córrego, bem próximo à nascente. A decorrência é a proliferação de roedores, baratas e pernilongos. No parquinho que fica ao lado, o problema são os miquins – larva de carrapato de cavalos – que atacam sobretudo as crianças da comunidade.
  Saindo alguns quilômetros da área urbana, em direção ao Parque Ecológico Daisaku Ikeda, onde está a barragem da antiga usina no Ribeirão Três Bocas, o comerciante, José Benedito Moreira, relata que nos últimos três anos, a ‘‘água ficou mais grossa e com mau cheiro’’. Segundo a assessoria de recursos hídricos do município, o problema tem origem na água que é liberada pelas estações de tratamento de esgoto da Sanepar. Moreira mora há mais de 20 anos no local, e diz que até mesmo o número de pescadores vem diminuindo.   Na invasão do Jardim Pindorama, com 17 famílias, os moradores ergueram os barracos num fundo de vale ao lado da nascente do Córrego das Pedras. O esgoto corre solto e as condições de higiene são precárias. A moradora Ivone Aparecida Felix Pereira afirma que todos se utilizam do manancial mas os problemas de saúde já começam a aparecer. ‘‘As crianças têm barriga d‘água e micose’’, informa.

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