O presidente Lula pode declarar que quem o critica são políticos sem caráter, mas também há os com-caráter que o fazem, e sobretudo o povo, que não se enquadra naquela qualificação pejorativa. E se a população não esconde seu descontentamento com a gestão presidencial, que tipo de pecha o governante irá atribuir-lhe? Deduz-se das palavras do Presidente que a nação está satisfeita e que só os políticos sem caráter o combatem. Este é o mal da maioria dos homens públicos, que perdem visão e audição políticas e não conseguem ver a realidade e ouvir o clamor popular, atribuindo tudo à ‘intriga da oposição’. Verdade que isto existe, e em tempo de campanha muitas cobras e lagartos afloram, mas Lula deveria saber do murmúrio das ruas e ter algum senso crítico, que parece faltar-lhe. Ele diz que não vai perder tempo com respostas aos detratores, mas é o que mais faz. Críticas à sua má gestão são procedentes, partam dos sem-caráter, dos com-caráter ou do povo – e este não age por ideologia partidária mas pela impulsão do sentimento e pelo que sente duramente na carne. Governantes de sofrível desempenho que admitem suas falhas – e se apenas isto também não ajude em nada – ainda são melhores do que aqueles que já não conseguem enxergar os erros e, ao contrário, julgam-se deuses e passam a auto-idolatrar-se. Se, de fato, existem os integrantes da oposição que torcem para o pior no Governo – uma tecla muito batida por Lula – será sempre necessário voltar as vistas para o manifesto das massas e saber que estas não desejam o caos, mas têm amargas queixas contra o Presidente que foi eleito sob a bandeira da esperança. O que existe de fato é que a nação apreciaria ver menos discursos do governante, menos rebates e mais ação. Dardos lançados como os de que ‘Lula é preguiçoso’, que ‘Lula bebe’, ferem duramente a imagem do presidente da República, mas não são acusações sem sentido. Rememore-se o incidente, agora da Copa, entre Ronaldo e o Presidente. Tinha mais autoridade o chefe do Governo em apontar para a gordura exposta do jogador do que este em rebater de forma deselegante. A verdade é que impera um marasmo institucionalizado na administração petista instalada em Brasília, historicamente muito habituada – esta sim – às críticas e às obstruções, mas, uma vez no poder, revelando-se molenga na praticidade das ações. O investimento pesado na técnica do discurso – marca forte do ideário do PT – e a pouca experiência no aprendizado e no exercício das ações produtivas, resultam no fraco desempenho das gestões petistas. O futuro que se avizinha, ante o forte indicativo da continuidade, é uma perspectiva nada entusiasmante.

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