Política sem utopia?
Política sem utopia?
Teofilo Bacha Filho
Será possível o mundo prosseguir sem o sonho da utopia? (Hobsbawm)
Richard Rorty, filósofo norte-americano, defendeu, num artigo recente, que os jovens fossem encorajados a ler tanto o Novo Testamento quanto o Manifesto Comunista, pois isto os tornaria moralmente melhores. Mas por que esses dois textos? Porque são emblemáticos de uma atitude fundamental para o homem: a capacidade de olhar para a frente, de projetar um mundo melhor, de vislumbrar uma causa à qual dedicar sua vida. São dois textos que abrem o horizonte da existência para a utopia, para a paixão por uma causa que faça com que a vida valha a pena ser vivida.
Vivemos tempos cinzentos. Um clima de acomodação domina extensas camadas de nossa sociedade. E o conformismo, essa atitude característica do homem esvaziado de sua liberdade e de sua individualidade, esconde-se sob o novo apelido de realismo. Olhemos para o nosso panorama político. Cada vez mais se generaliza a idéia de que o nosso futuro passa, irremediavelmente, pelo comprometimento com a ordem econômica internacional. Os grandes temas do momento são a reforma do Estado (torná-lo mais ausente e distante), as desregulamentações e privatizações, o endeusamento do mercado como motor divino da sociedade. Qualquer oposição ao modelo imperante é tomada como manifestação explícita de conservadorismo ou de mentalidade antediluviana, coisa de gente ultrapassada. Desigualdades sociais? Solidariedade? Identidade Cultural? Participação Popular? Formação humanista? Bobagens que já perderam relevância e oportunidade, num mundo onde o que importa é a produtividade, a qualidade total, a sintonia com a modernidade , e - maravilha das maravilhas - a educação para a empregabilidade! ...
Na verdade, tudo converge para um sentimento que é o avesso do otimismo da década de 60 - quando nós acreditávamos que o país era viável e caminhava para um futuro melhor. Hoje, o futuro se estende até o próximo abalo do mercado asiático, enquanto a utopia passou a resumir-se na esperança de uma sobrevida maior para um plano antiinflacionário. O debate intelectual fecundo, voltado para a compreensão do sentido da História - que foi a marca dos anos loucos - foi substituído por afirmações decisivas, sempre apresentadas como fatos consumados, desqualificando-se o debate antes mesmo que ele exista. Não é à toa que o país parece se ter tornado incapaz de pensar e, de fato, tornou-se. Basta olharmos o triste espetáculo dado pelo nível do debate parlamentar, seja no plano nacional, seja no estadual. Mas, sejamos justos, faz par com as ações dos governos, cuja mediocridade cresce na mesma proporção em que se valem mais da esperteza, no sentido que lhe deu Munhoz da Rocha: o complexo da esperteza faz perder a noção do mal ... Falsifica e confunde. Edifica um estilo de vida, um modo de agir, que vai, aos poucos ... colhendo aplausos e sendo tachado de inteligente (Presença do Brasil).
É preciso coragem para romper com essa ordem da inércia, na qual modismos e jogadas de marketing passam à condição de paradigmas, na medida em que as forças hegemônicas dominantes usam o próprio discurso para construir a realidade que as legitima. É preciso desfazer-se da camisa-de-força do conformismo e abrir caminho à ousadia, à criatividade e, principalmente, à Utopia. Não existe Política autêntica sem esperança, porque a construção do mundo se faz a partir de uma maquete que se chama Utopia. Sem ela, estamos simplesmente destruindo as bases da civilização e regredindo à prevalência da lei do mais forte. O que Hitler desejava em nome da raça superior, nós edificamos em nome dos mais competitivos: substituímos a Utopia pelo Holocausto - só que não usamos mais campos de concentração. Preferimos encerrar os privilegiados em campos de concentração de alto luxo, abandonando do lado de fora os que nossa insensibilidade reduz a simulacros de seres humanos. Deixar crescer a convicção de que alternativas são possíveis sem que aceitemos como fatos naturais a idolatria do mercado e a marginalização excludente de milhões de seres humanos. Não permitir que o cotidiano de miséria material e moral nos atinja, de modo a nos fazer perder o que de mais importante possamos ter: a sensibilidade moral para a compaixão que, aliada à sensibilidade ética para a justiça, renova o brilho do nosso olhar em direção ao Futuro. É assim que voltamos a abrir espaço para a Utopia, o fermento da nossa esperança.
- TEOFILO BACHA FILHO é membro do Conselho Estadual de Educação.





