Política, politicagem e suas diferenças
Se alguém recorrer ao dicionário para saber o significado de política e politicagem, irá também deparar com os conteúdos conceituais que diferenciam esses dois vocábulos. Assim, política, entre outras definições, é arte de bem governar os povos; conjunto de objetivos que informam determinado programa de ação governamental e condicionam sua execução; civilidade, cortesia. Já politicagem quer dizer política mesquinha, estreita, de interesses pessoais; conjunto de políticos pouco escrupulosos, desonestos.
No caso do Brasil, a politicagem que emerge de maneira explícita dos períodos eleitorais como o de agora, ou aflora de modo incontestável dos atuais escândalos ligados à corrupção, ou é, como está na moda dizer-se, fruto do neoliberalismo e da globalização. Melhor ainda, a politicalha que empesteia os quatro cantos do País só tem um culpado: o presidente Fernando Henrique Cardoso. E de tal modo se avoluma a histeria politiqueira, que sobre o próprio presidente começa a pairar a suspeita de corrupção, algo difícil de aceitar sem provas, pelo menos da parte dos que acompanharam, ainda que de longe, a trajetória do intelectual que duas vezes o povo elegeu para governar o País porque aquele soube fazer política.
Na verdade, a politicagem e a corrupção a ela ligada nasceu quando nosso primeiro ancestral conseguiu finalmente ficar em pé e emitir os primeiros grunhidos, tendo acompanhado a humanidade pelos tempos afora e através dos variados sistemas de governo. Portanto, a politicalha que hoje se observa graças à evolução dos meios de comunicação, não é apanágio do neoliberalismo nem da globalização atual. Ela existiu de modo abundante, inclusive, nos sistemas socialistas de variados matizes que medraram neste século, sendo um bom exemplo o estarrecedor legado de corrupção deixado à Rússia pela extinta União Soviética.
Já os Estados Unidos, que desde sua origem foram um país liberal por excelência, se por um lado também abriga a corrupção uma vez que é habitado por seres humanos por outro possui mecanismos mais eficientes para combatê-la. Uma questão de cultura na qual se inclui o cumprimento da lei de forma mais rigorosa, o que não é obviamente nosso caso.
Aliás, a história da América Latina, à qual pertencemos, nunca ofereceu grandes exemplos de política, mas foi fértil em politicagem. De fato, como analisou Lawrence E. Harrison, em sua notável obra Subdesenvolvimento é um estado de espírito. Nas colônias espanholas, os abusos tenderam a se agravar à medida em que progredia a decadência da Espanha, sendo que o suborno e outras formas de corrupção cada vez mais predominaram. Os governadores e outros funcionários de alto nível detinham grande poder através da autoridade de estabelecer encomiendas e de designar outros funcionários. Não havia nada que os impedisse de favorecer parentes e amigos, e o nepotismo floresceu. Os sistemas de justiça e administração foram similarmente corrompidos.
No nosso caso, apesar de nossas peculiaridades com relação à América Hispânica, não fugimos à regra. Se houve uma corrupção espanhola, houve também uma corrupção ibérica. Muito contribui para isso o declínio de Portugal, que no século XVII viu exaustas suas fontes de comércio. Considere-se ainda o tipo de Estado que herdamos de nossa matriz, cuja característica patrimonialista gerou filhos gêmeos: o estamento burocrático e a corrupção. Acrescente-se a instituição do sistema escravagista na colônia, e aí veremos algumas das raízes do nosso atraso e da nossa corrupção endêmica, que sempre entranhou de alto a baixo o tecido social tanto no setor público quando no privado.
Como escreveu, em 1846, o embaixador norte-americano no Rio de Janeiro, Henry A. Wise, ao secretário de Estado James Buchanan: Só há três maneiras de se fazer fortuna no Brasil ou no tráfico negreiro ou negociando com escravos ou tendo uma casa exportadora de café... Apenas os comerciantes estrangeiros se dedicam ao café e todo o brasileiro influente tem de participar, direta ou indiretamente, das duas primeira atividades... Os traficantes são, pois, os homens que detêm o poder ou os que emprestam aos homens do poder e os manobram... Assim, o próprio governo é, na realidade, um governo traficante, contrário às suas próprias leis e aos tratados.
Mesmo se considerando a austeridade do Segundo Reinado, não se pode omitir que nessa época havia corrupção. Raymundo Faoro menciona em Os donos do poder, o largo tráfico de concessões que originaram as altas fortunas do Império. Frequentemente os políticos vendiam as concessões que haviam recebido a incorporadores nacionais e estrangeiros, sendo que nem sempre os serviços se realizavam.
Portanto, a corrupção a que hoje assistimos, alguns de forma indiferente, outros de maneira hipócrita e os demais, principalmente a classe média, com surdo clamor indignado, é sintoma que, sendo característico da natureza humana se aprimora e evolui em sociedades como a nossa, onde a cultura originada do processo histórico contribuiu decisivamente para favorecer falcatruas de toda espécie que envolvem, inclusive, aqueles que deveriam ser os guardiães da lei. Lembremos de Jorgina e sua quadrilha, do juiz Lalau etc., etc., etc.
Portanto, os ataques ao presidente, ao neoliberalismo cujos detratores parecem não saber o que é ou preferem ignorar o verdadeiro significado à globalização, fazem parte do Festival de Besteiras que Assola o País (Febeapá), que parece ter como objetivo fazer politicagem para ganhar o poder.
No mais, apesar de todos os desafios e problemas, estamos progredindo. Que o digam os indicadores econômicos. Só a indústria registra a maior produção dos últimos 25 anos. Por isso, acautelem-se os politiqueiros. Ao contrário do passado, quando se pedia aos políticos mais estilo e menos substância, hoje o eleitor medianamente esclarecido quer mais substância e menos estilo.
A questão é se este eleitor existe em número suficiente para barrar a politicagem através do voto, e das diversas formas que a sociedade civil encontra para controlar o poder que nos controla quando este se torna corrupto e incompetente. No mais, como bem explicou Rousseau, o governo sempre trama contra o povo. E por isso mesmo, nada melhor que o neoliberalismo e sua idéia de Estado mínimo. Pena que isto não exista no Brasil.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora, professora universitária em Londrina
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