A greve dos caminhoneiros reflui aos poucos com escoltas policiais garantindo a entrega de combustível desde a saída do pool até os postos de gasolina. Aqui e ali ainda observam-se protestos que não têm exatamente a ver com as reivindicações dos caminhoneiros. A greve justa - por diesel a um preço suportável para a turma da estrada, além de outras exigências da categoria - foi assaltada por uma série de atos que deram conta de um País emitindo perigosos sinais de alerta numa democracia frágil. Se o apoio da população foi importante para o movimento, os excessos de quem age mais por ideologia e menos por demandas econômicas foram um show à parte de truculência e mesmo irresponsabilidade em alguns casos.
O Brasil mostrou sua face de politização abrupta, à base de impulsos quase primitivos engrossados por pedidos de intervenção militar a partir de um movimento civil e a apenas quatro meses das eleições presidenciais. Por mais que a impopularidade do presidente da República tenha atingido níveis estratosféricos – as últimas pesquisa dão conta de índices de aprovação em torno de 6 por cento - o clamor por intervenção militar não põe apenas o governo em risco, mas a própria democracia. Os sensatos dizem que é melhor tolerar Temer até o fim do mandato do que embarcar num trem fantasma a poucos meses das eleições.
Cidadãos nostálgicos e jovens que não suportariam um pisão de coturno em tempos de ditadura, ergueram a bandeira de um momento nacional de triste memória, numa demonstração de que fazer política não significa apenas ter força nas ruas, é preciso ter a compreensão das engrenagens obscuras que, num dado momento, saltam das caixas como um desses brinquedos que dão sustos.
Na contrapartida, isso serviu para que a parcela da sociedade que luta por democracia e aguarda as eleições como o momento de virar uma página de sobressaltos sucessivos, reagisse à ideia de uma intervenção militar fazendo a crítica que foi adotada até mesmo nos quartéis quando generais experientes deixaram claro que as forças armadas não têm a menor vontade de repetir o papel de sequestrar a liberdade de organização política e de escolhas individuais.
A força só interessa a quem desrespeita a democracia e nega a evolução do País que ainda guarda traumas do passado. O resto é fantasia ou despreparo de gerações subsequentes que não apoiam conquistas, mas arbitrariedades.
Diante de um espetáculo que promoveu o abuso no lugar da democracia – que suporta bem as manifestações populares, mas não a injúria de movimentos que pregam a força – a greve dos caminhoneiros foi uma das mais bem-sucedidas da história nas últimas décadas, sob o ponto de vista dos seus impactos. Mas chegou também a hora de computar não só os avanços, mas também os prejuízos, e passar a limpo os valores da nação rumo à maturidade política que preserva a democracia através de escolhas por meios civilizados.

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