POLÍTICA NACIONAL - 'Suplente de senador é uma aberração'
PUBLICAÇÃO
domingo, 27 de janeiro de 2008
Fábio Cavazotti<br>Reportagem Local 
Senador sem voto é incompatível com a democracia. A alternativa é ficar com o segundo mais votado, no caso de morte ou renúncia do parlamentar. Para a cientista política Lúcia Hipólito, a aberração que representa a suplência nunca foi tão explícita quanto hoje, com o escândalo envolvendo o ministro de Minas e Energia, Edson Lobão, e seu filho, Edson Lobão Filho (DEM-MA), que deve assumir a vaga do pai no Senado federal e é acusado de utilizar laranja para sonegar impostos. O episódio abre espaço para mudanças na Lei.
Nesta entrevista por telefone à FOLHA, do Rio de Janeiro, Lúcia também falou sobre a influência das eleições municipais de 2008 sobre a corrida presidencial de 2010.
Há clima para revogar a figura do suplente de senador?
Acho que é difícil, mas não impossível. A sensação é que teríamos que aproveitar esse momento porque chegamos a um nível de aberração que nunca tinha sido atingido - ou pelo menos não tinha vindo a público. O caso do suplente de senador é um dos mais terríveis por três motivos: é alguém que assumiu sem ter um único voto; tem o lado de que o senador sai para assumir um ministério, um governo, porque não arrisca nada com o mandato de oito anos; além disso, muitas vezes o suplente é o financiador da campanha e depois assume para defender ou barrar um projeto de seu interesse. Se você for reparar, estamos vivendo a república dos senadores desde a redemocratização: (José) Sarney, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Marco Maciel, e agora José Alencar - todos foram presidentes ou vice.
E hoje?
Olha, nós estamos com o caso do Fernando Collor, que chegou ao Senado crente de que era o rei do caqui e acabou sem ambiente - dava clareira em volta dele no cafezinho. Ele tirou licença e o primo, Euclides Mello, que pretende ser prefeito de Deodoro, em Alagoas, assumiu a cadeira para ter visibilidade e levar emendas parlamentares. Já Fernando Collor está em campanha pelo interior de Alagoas porque quer voltar a ser governador e presidente da república - e acha que vai conseguir. Outro exemplo: o Pedro Piva financiou a campanha do governador José Serra, quando era senador, e passou pouquíssimo tempo no senado. Temos ainda o Sibá Machado, que é o suplente mais antigo, está lá desde o primeiro dia de 2003, quando Marina Silva assumiu o Ministério do Meio Ambiente, e o Welington Salgado, que foi uma aberração nesse escândalo do Renan (Calheiros).
E as eleições municipais, terão influência na corrida pelo Palácio do Planalto em 2010?
Em alguma área tem. Estamos num processo de substituição política, em que o PT penetrou no Nordeste e municípios com menos de 20 mil habitantes, com o bolsa família e a idéia de desalojar os coronéis. Isso vem dando certo e se o partido conseguir realmente fincar a bandeira nos grotões, vamos ter o PT com um candidato muito sério, mesmo que não seja o presidente Lula, em 2010. Por outro lado, o antigo pefelê - atual Democratas -, quer vir para o sul e para os grandes centros. Está com a prefeitura do Rio e de São Paulo e quer conservar. Para isso, faz esse movimento de apoio à classe média, de fim da alta tributação, o que tem muito apelo nos centros urbanos. O Democratas encontrou um nicho e vai disputar as eleições com isso. O problema é o PSDB que ninguém sabe o que é. O PSDB ajudou a eleger Arlindo Chinaglia (PT) presidente da Câmara e o governador Serra se entende melhor com o senador (Aloizio) Mercadante (PT) que com o ex-governador Geraldo Alckmin.
Em suma...
As eleições municipais vão interferir sim. De um lado você tem uma máquina de fazer votos, com realizações e máquina pública na mão, mas que não tem candidato (PT), e do outro lado você tem excesso de candidato, mas não tem programa (PSDB). O PFL, que cresceu nos centros urbanos com o Xô CPMF ainda pode ser uma força auxiliar importante.
E nomes?
Olha, eu sou boa analista, mas péssima cartomante. Acho que ainda está muito complicado saber como roda esse baralho. Se for mais para o lado de governadores, havia uma esperança de que Jaques Wagner, da Bahia, pudesse despontar, porque afinal é o quarto eleitorado do país. O problema é que ele ainda não começou a governar. A ministra Dilma (Roussef), eu acho complicado porque ela é dura, não tem jogo de cintura.
Se o Alckmin era o picolé de chuchu...
Ela é um paralelepípedo ainda. Mas claro, tem o media training, o cabelereiro, marqueteiro, que pode resolver. Mas ela está muito pendurada no fato de ser a gerentona do governo, então, se tiver alguma suspeita de apagão, pode entregar os pontos. E é muito difícil a transferência dos votos do presidente Lula para esses candidatos. Agora, tem o Ciro Gomes, que está lá meio organizado com o PSB, já foi candidato a presidente da República. Agora nós vimos que a capacidade dele de resistir ao tranco não é muito grande - e não sei se ele mudou de lá para cá.


