Cena rotineira: repressão durante protesto na Venezuela
Cena rotineira: repressão durante protesto na Venezuela | Foto: Federico Parra/AFP



Nas últimas semanas, várias crises políticas em países da América do Sul, literalmente, estouraram como uma bomba. Na Venezuela, manifestantes saíram às ruas para protestar contra uma decisão do Tribunal Supremo de Justiça de assumir temporariamente as funções da Assembleia Nacional e foram reprimidos com violência.
No Paraguai, durante protestos contra a aprovação de uma emenda que permite a reeleição presidencial, o prédio do congresso do País foi incendiado e um estudante foi morto.

No Equador, a oposição apontou fraude eleitoral e pediu recontagem de votos após ser derrotada no pleito presidencial que elegeu o governista Lenín Moreno. Já a Argentina deu início a uma greve geral convocada pela Confederação Geral do Trabalho (CGT) para protestar contra as medidas econômicas do governo de Mauricio Macri, com grande impacto no transporte público.

No Brasil, desde que foi deflagrada a Operação Lava Jato, há três anos, a maior parte dos políticos relevantes do País, seja do governo ou da oposição, se viu envolvida em denúncias de caixa dois e recebimento de propina. Os novos rumos das investigações, que culminaram nas "delações do fim do mundo" de ex-executivos da empreiteira Odebrecht, levam a especulações e geram ainda mais instabilidade política. A presidente Dilma Rousseff sofreu impeachment no ano passado e Michel Temer, o sucessor, corre o risco de ser cassado pela Justiça Eleitoral enquanto tenta aprovar uma série de reformas impopulares.

Para Fábio Borges, professor adjunto e coordenador do programa de pós-graduação em Integração Contemporânea da América Latina (Ical) da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), as crises desses países têm relação e a instabilidade política seria reflexo de uma instabilidade econômica: "O que talvez unifique todas as situações é que as populações desses países já tiveram uma experiência de políticas sociais".

Essas crises, ainda que com as particularidades de cada país, têm alguma relação entre si?
Existe uma correlação, evidente, por um sistema internacional que está muito interligado. Mas antes é importante contar um pouco do histórico e dos processos desses países: são países que nos anos 1980 passaram por crises de endividamento e nos anos 90 tinham grandes esperanças de que, adotando políticas neoliberais, alcançariam novamente um crescimento econômico e, de certa maneira, a criação de empregos. Porém, o que aconteceu? Muitos desses países em que enxergamos essa crise atual se frustraram com as políticas neoliberais. E aí houve uma ascensão de políticos progressistas, alguns pejorativamente chamados de populistas, como Cristina Kirchner, Lula, Evo Morales, Rafael Correa e o próprio Hugo Chávez. Criou-se, portanto, uma situação na qual esses presidentes tiveram uma influência direta na política econômica, foram mais intervencionistas. Algo que, na América Latina, desde os anos 70, estava se tentando combater, diante do cenário no qual muitos países identificavam esse modelo como fracassado. Tivemos, então, uma grande força do neoliberalismo. Porém, surge uma esperança novamente de uma maior interferência do Estado na economia, que teria um elemento fundamental para fazer transformações sociais.

Além dos governos, o que une esse países?
O que une todos esses países da América Latina é que ela é a região mais desigual e mais violenta do mundo. Então, de certa maneira, esses governantes tomaram medidas tentando fazer coisas diferentes do neoliberalismo, mas ficaram aprisionados a propostas que não são tão contraditórias com as políticas liberais. Certamente existem especificidades em cada país. O Brasil apostou muito no consumo como forma de desenvolvimento, o que durou por um tempo. Já na Venezuela, houve problemas estruturais, porque o País continuou totalmente dependente do petróleo e usou isso como mecanismo de políticas sociais. Elas tiveram êxito em um curto prazo, mas houve um problema de articulação política no qual se criou uma polarização que impede o desenvolvimento harmônico dos diferentes grupos. Mais até no governo Nicolás Maduro que no de Hugo Chávez, período de maior radicalização, mas com a grande vulnerabilidade da dependência dos recursos. Ou seja, por mais progressista que o Chávez tenha sido, ele não resolveu o problema central, que é ficar dependente das variações do preço do petróleo. Assim, as políticas sociais não acontecem porque dependem desses recursos.

E os demais países?
A situação do Equador, da Bolívia e, agora, do Paraguai também tem suas particularidades. Mas o que eles têm em comum é isso, uma grande esperança de tentar algo alternativo. E tentou-se esse algo alternativo, mas que se mostrou limitado também. No caso do Equador de hoje, é um país que está polarizado, mas com políticas econômicas de maior intervenção do Estado e mais políticas sociais. De qualquer maneira, estão sempre dependentes dos produtos primários, com pouco desenvolvimento tecnológico, ficando à mercê do que está acontecendo no sistema internacional e às forças internas de cada país, principalmente as empresariais. A Bolívia é um caso interessante, porque talvez seja o país que melhor conseguiu medidas inovadoras. Existe uma intervenção crescente do Estado na economia, mas os indicadores sociais e econômicos estão acompanhando positivamente, tanto que é o país mais dinâmico da América do Sul atualmente. Por mais que existam crises internas no País, ainda há um elemento importante de uma alternativa. Porém, qual é o foco central da Bolívia? É um país que partiu de uma base social muito mais frágil. Então sair de uma situação que era a mais grave entre os países na América do Sul talvez seja mais fácil do que para um país de porte médio ou porte maior.

E qual, exatamente, o ponto em comum?
O que acontece que talvez unifique todas as situações é que as populações já tiveram uma experiência de políticas sociais. E agora, no momento em que entram governos mais pró mercado, essa população também vai se manifestar e questionar tudo isso, voltar às ruas para protestar contra essas medidas que parecem ser o único caminho. As reformas são um caminho que geram muita exclusão, mais desigualdade, então, tanto os governos pró mercado quanto os governos desenvolvimentistas vão enfrentar crises tremendas no futuro.

Houve, na década passada, uma ascensão de governos de esquerda nesses países, que estão saindo aos poucos. Então, de certa forma, havia um alinhamento entre os países da América Latina. Como fica isso agora?
Essa é uma situação bem importante e curiosa. O termo da integração regional foi um acerto. E algumas propostas de integração realmente foram colocadas em marcha, principalmente a questão da Irsa (Iniciativa para Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana), que foi proposta em 2000 e teve muitos êxitos importantes para a integração regional. Como também a Unasul (União de Nações Sul-Americanas). Ambas são criações que têm vínculo muito forte com esses governos de esquerda. Inclusive, houve uma atualização do Mercosul, que nasceu muito vinculado ao mercado, mas que, com os governos de esquerda, passou a ter outras características, pensando mais temas sociais e de investimentos. Agora, com governos mais de direita e mais liberais, a tendência era que a integração regional perdesse força. Mas, curiosamente, com a ascensão de Donald Trump e com políticas mais nacionalistas, mais isolacionistas, os países da América Latina perderam também essa possibilidade dos Estados Unidos como grande aliado. Dessa forma, mesmo os governos de direita vão continuar apoiando essas propostas de integração, claro que com ênfase maior em temas de comércio e de investimentos.

No que, exatamente, a política de Donald Trump vai refletir nas relações com os países da América Latina, sobretudo o Brasil?
A visão mais protecionista dos Estados Unidos e de Trump gera impacto no mundo inteiro pelo papel relevante que esse país possui. Na América Latina, podem haver duas características centrais. Uma interferência militar, ou seja, uma maior presença militar dos Estados Unidos, porque a tendência é que se resolvam as questões mais pelas vias da força que econômicas, e não pela diplomacia. Mas, por outro lado, isso dará um grau de liberdade maior aos latino-americanos para atuarem juntos, porque a América Latina não é uma prioridade para o governo Trump. Inclusive acaba colocando o México, que era um país muito vinculado aos Estados Unidos, como ator relevante na América Latina.

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