Política feita por pigmeus
PUBLICAÇÃO
domingo, 25 de agosto de 2002
Rubem Azevedo Lima 
A campanha eleitoral gratuita está-se desfigurando, nos meios de comunicação eletrônica, ao misturar os alhos, que interessam ao país - a busca de soluções para problemas do dia-a-dia na vida dos brasileiros -, com o ranço de miudezas e picuinhas, os bugalhos, que são as acusações sobre temperamento dos candidatos.
Infelizmente, é quase sempre em baixarias que dão as campanhas presidenciais comandadas por marqueteiros! Reduzem-se os momentos democráticos que precedem as eleições à indigência dos flagrantes de espetáculos da realidade, como os que as televisões vêm exibindo agora, no Brasil e no mundo.
Em vez de corpos nus ou seminus, desnuda-se o recôndito de consciências e se desarquivam destemperos, nesse palco em que o melhor argumento é a malignidade, permeada, aqui e ali, por tentativas de exposição de espírito público e de sensibilidade social, como que para dourá-la e torná-la palatável. O produto final, porém, é um misto de lixo e lantejoula que enche de repugnância a mente dos telespectadores e os desencanta.
A situação do país é das mais dramáticas da história republicana. Os indicadores econômicos e sociais mostram que as chamadas conquistas feitas pelo Plano Real se desfazem rápida e perturbadoramente, enquanto a campanha eleitoral cai de nível. Endividamo-nos em condições intoleráveis e perigosas, interna e externamente. O desemprego, a cada dia, bate novo recorde. Os salários perdem substância. Crescem a pobreza e a criminalidade. Os brasileiros sentem-se abandonados e sem proteção. Nossas forças armadas estão sucateadas. O Brasil todo parece também sucatear-se econômica, política e socialmente.
Por tudo isso e muita coisa mais, pairam graves ameaças à soberania nacional. Uma delas é a Alca, o acordo que pretendem impingir-nos e que comporta, além da perspectiva de abertura completa de nosso mercado - com todas as más conseqüências que isso possa ter para milhões de trabalhadores -, até a hipótese explícita de internacionalização da Amazônia.
Diante desse quadro, que demanda a grandeza de percepção do estadista para tentar revertê-lo, a campanha eleitoral parece guiar-se pela pequenez da visão de pigmeus a serviço dos políticos e desorienta os eleitores
Corrijam-se logo os temas da campanha. Os brasileiros votarão em urnas eletrônicas, não funerárias, pois não querem o enterro do país e de suas esperanças.
RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília


