O Brasil não tem contenciosos políticos que indiquem a possibilidade de conflitos em nossas relações externas. Ao contrário, temos a nosso crédito longo e incontestável passado de soluções pacíficas, de que são exemplo recursos ao arbitramento internacional nas questões de nossos limites territoriais. Por outro lado, jamais aspiramos a exercer hegemonia ou liderança que implicasse em praticar qualquer forma de soberania além de nossas fronteiras. Sempre respeitamos e defendemos, ao lado do princípio da não intervenção, o direito à auto-determinação de todos os povos.
Todo esse expressivo patrimônio moral de coerência e isenção não significa nem isolacionismo e nem desconhecimento de nossas responsabilidades no concerto das nações, o que pode ser comprovado pelas circunstâncias de termos sido chamados a arbitrar também conflitos alheios. Participamos, além do mais, de todos os fóruns internacionais e somos fundadores de instituições que, como a ONU, têm como objetivo a solução pacífica das divergências entre nações, ou de formas de cooperação, como as agências especializadas daquela organização.
No âmbito interamericano, não é menor nem menos ativa nossa cooperação. A iniciativa de constituir o Mercosul representou um passo ainda mais afirmativo no desejo de participarmos da integração regional. Novas e promissoras expectativas se abriram não só com o acordo marco do Mercosul com a União Européia, mas sobretudo com a primeira reunião de presidentes sul-americanos convocada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, para a formação de uma área de livre comércio com o Pacto Andino, como preliminar para constituição da Alca que deve incorporar todo o continente, com a integração física, econômica, científica, tecnológica e cultural de nossos países, sob a égide do compromisso democrático.
Todos esses esforços são passos que não somente consolidaram a nossa iniciação cada vez mais ativa no cenário mundial, mas ao mesmo tempo tornaram nossa diplomacia uma presença atuante em todo o mundo.
A tendência à intensificação do comércio, do intercâmbio cultural, científico, político e jurídico se tornou patente com a Cúpula do Milênio, encerrada há poucos dias em Nova York, com a presença de 150 chefes de Estado e de governo. Uma das questões da pauta dessa macro reunião, sem paralelo em toda a história pelo número de participantes, foi a de manifestar o desejo coletivo do processo de globalização decorrente dos avanços científicos em matéria de comunicação e informação de forma a atenuar as dramáticas diferenças que ainda separam as nações prósperas e desenvolvidas das mais pobres.
Está claro que a aspiração por autonomia e diversidade é legítima e contribui, necessariamente, tanto para a superação dos conflitos, como também para o aumento do pluralismo a nível mundial. O resultado tem sido o surgimento de um grande número de nações soberanas que hoje convivem em paz, sem guerras declaradas nem confronto, algo inédito no século que está findando.
O desafio do próximo século, portanto, deve ser, antes de mais nada, o de assegurar soberania como forma de propiciar estabilidade e prosperidade. Com os recursos da ciência e da tecnologia, a transferência do conhecimento e o aumento do nível de vida, podemos ter esperança de tornar o comércio mundial mais justo, não discriminatório e fonte de diminuição de disparidades mundiais.
Num mundo assim integrado, as pautas políticas e sociais tendem a se universalizar, deixando de ser assunto inscrito apenas na esfera da soberania de cada país. Este é, a meu ver, o caminho da paz, pois não se conhece na história contemporânea uma nação democrática que tenha agredido ou se empenhado em guerra com outra nação também democrática.
Está patente que a democracia política é o fator mais importante da paz mundial. Conflitos internos e guerras localizadas, no fim do mais sangrento de todos os séculos, só existem onde não há democracia. Disto o mundo todo, pelo espetáculo presenciado na Cúpula do Milênio, novamente parece cada vez mais convencido, o que é bom augúrio para o século 21.
- MARCO MACIEL é vice-presidente da República

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