No mês passado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebeu o chefe de Estado do Irã, Mahmoud Ahmadinejad. O encontro foi marcado por protestos. A recepção foi alvo de críticas de movimentos sociais, membros do Congresso americano e potências europeias. A resistência é fruto da oposição ao conservadorismo e ao investimento do governo iraniano em programas nucleares.

''O Brasil está vivendo uma fase nova de sua política internacional, sendo recebido como ator importante nas arenas decisórias. Acredito firmemente que Brasília se tornará a capital mais importante do hemisfério sul'', afirma o cientista político Leonardo Barreto, da Universidade de Brasília (UnB). Nesta entrevista, ele avalia a postura de Lula ao receber o presidente iraniano e discute as estratégias diplomáticas do Brasil.

A visita do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, poderá gerar mais dificuldades diplomáticas para o Brasil?
Esse é o preço da maior inserção internacional do país. A polêmica visita do presidente iraniano foi em parte compensada pela declaração de que o Brasil refuta qualquer utilização não pacífica da energia nuclear. A diplomacia brasileira mostrou sua posição ao mundo: a solução do problema iraniano não se resolverá com isolamento, mas com negociação. Se der certo, o Brasil sairá bastante fortalecido.

O presidente Lula tinha outra alternativa a não ser recebê-lo como recepciona todos os outros chefes de Estado?
Não. O Irã não é qualquer país. Possui uma história milenar, é uma reserva extraordinária de recursos energéticos, possui universidades avançadas e é um dos berços culturais da humanidade. Há dificuldades graves do país em questões de direitos humanos. Devemos deixar claro nossa posição, mas sem fechar os canais de diálogo. O Brasil é um país democrático que precisa dar voz a todos, gostemos ou não do que será dito. Essa é a regra do jogo.

O fato do governo Lula, além de Ahmadinejad, já ter recebido o presidente de Israel, Shimon Peres, e o presidente da Autoridade Palestina Mahmoud Abbas, não é uma demonstração de imparcialidade do Brasil na geopolítica internacional?
Sim. Foi uma jogada muito inteligente do Itamaraty combinar essas agendas. O Brasil é um ator internacional novo. Contra ele não pesam rancores gerados no passado. Dessa forma, estamos nos credenciando para intermediar discussões entre inimigos históricos. Os mediadores internacionais, como os Estados Unidos, estão sofrendo de esgotamento de credibilidade e de falta de confiança dos atores palestinos e iranianos. Temos um capital simbólico de neutralidade e credibilidade que não podemos desperdiçar.

A aproximação ideológica entre Lula e o presidente venezuelano Hugo Chávez gera dificuldades para o fechamento de acordos econômicos com os países de Primeiro Mundo, em especial os Estados Unidos?
A solução da polêmica venezuelana está bem próxima da resposta à questão iraniana. O que será mais efetivo para que o país mantenha a normalidade democrática: isolamento ou negociação nos fóruns competentes? Internacionalmente, Lula está sendo cobrado para ter uma posição mais enfática no que se refere à restrição de direitos de liberdade de expressão na Venezuela. Por outro lado, os Estados Unidos confiam no Brasil como uma força moderada capaz de conter alguns exageros de Chávez. Grande parte do diálogo entre a Venezuela e os Estados Unidos é feita por meio de Lula.

O senhor concorda com a adesão da Venezuela ao Mercosul? Essa decisão deve ser pautada em interesses políticos ou os interesses econômicos devem prevalecer?
Sim. Em primeiro lugar, a inserção da Venezuela é amplamente apoiada pelos setores empresariais brasileiros, pois eles sabem da existência de muitas oportunidades de negócio. Além disso, as cláusulas democráticas existentes no Mercosul podem ajudar a oposição venezuelana a exigir comportamento adequado de Chávez. Portanto, a adesão da Venezuela é coerente com a linha política do Itamaraty, que rejeita medidas isolacionistas e acredita que a inserção de países com problemas nas arenas internacionais os ajudarão a continuar ou a voltar para o caminho democrático.

O senador Eduardo Azeredo (PSDB) criticou a postura do assessor especial para assuntos exteriores do Planalto Marco Aurélio Garcia, que reprovou a posição do governo Barack Obama em relação à crise em Honduras. Para o tucano, essa postura pode atrapalhar o governo brasileiro nas negociações internacionais. Qual é a sua avaliação sobre essa crítica?
Acredito que o Brasil deve evitar agir unilateralmente, como pareceu ter acontecido no caso de Honduras. Divergências entre os países são normais, mas o Brasil deve debater com outros países pela via diplomática.

O presidente Manuel Zelaya foi deposto por tentar modificar a Constituição para permanecer mais tempo no poder. Atitude que outros presidentes latino-americanos, inclusive Fernando Henrique Cardoso, também tomaram. Diante disso, qual a sua avaliação sobre a postura do governo Lula na crise de Honduras e sobre as críticas da oposição?
A posição do governo Lula foi bastante controversa e perigosa. Aceitar a presença de Zelaya na embaixada gerou um risco muito grande de guerra civil naquele país. Além disso, causou uma forte impressão de ingerência do Brasil nos assuntos internos de Honduras. Acredito que a solução mais adequada seria dar um prazo para que Zelaya assumisse o status de exilado político e solicitar que ele desocupe a embaixada. O Brasil precisa agir pelas instituições reconhecidas.

A preocupação brasileira em relação à instalação de bases norte-americanas na Amazônia colombiana é justificável. Isto coloca em risco a soberania nacional?
Não há ameaça à soberania da Amazônia. A preocupação do Brasil está ligada às consequências que a presença americana terá para o equilíbrio político da região, sendo fonte de conflito entre a Colômbia e seus vizinhos, em especial o Equador e a Venezuela. Um conflito armado na região teria consequências terríveis para o continente e para o Brasil, que acabaria tendo que assumir o passivo humanitário gerado pela guerra. Além disso, uma disputa armada na sua própria fronteira colocaria em cheque a verdadeira capacidade do Brasil de agir como líder regional.

O fato da extradição do italiano Cesare Battisti, que foi condenado por homicídios em seu país de origem, ter se tornado política e não mais jurídica pode trazer reflexos para o Brasil?
Não há escolha fácil nesse caso. Ambas as decisões terão consequências negativas para o país. Nesse caso, a decisão será tomada tendo como parâmetro a repercussão interna e eleitoral do caso. Portanto, não há como prever o que irá acontecer.

Por outro lado, o governo brasileiro deportou dois pugilistas cubanos que queriam asilo político no País. Como o senhor avalia as posturas divergentes diante de situações de extradição?
Não há divergência. Nos dois casos, o ministro da Justiça agiu de acordo com as suas convicções ideológicas. O que precisamos discutir é se essa é a forma mais adequada de tratar de questões de interesse de Estado. Na minha opinião, isso não está dando muito certo até o momento.

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