Política espetáculo - Hélio Duque
Hélio Duque
A política é um atraente produto de consumo, de marketing? Ou é um assunto sério que envolve a vida da sociedade? Deve a atividade política pautar-se pela banalização populista, geradora de fenômenos personalistas que criam a desesperança? A desqualificação da ação política, na contemporaneidade, em nível mundial, tem sua origem na despolitização doutrinária e ética. A política espetáculo, piromaníaca, é a antipolítica, sustentada nos falsos eslogans dos marketings de ocasião.
É uma rota perigosa, geradora de promessas impossíveis de serem cumpridas, dos programas de governo fraudados e mistificadores. Infelizmente, é o cenário predominante em todas as sociedades emergentes. O Brasil não foge à regra. Infelizmente essa relativização da política como instrumento de construção do bem comum, de reformas estruturais, tem sua matriz no que ocorre nos Estados Unidos. Na América Latina, onde a consolidação da democracia, dos valores de liberdade, viveu sempre o dilema de ditaduras e momentos democráticos, a política despolitizadora é geradora de frustrações permanentes.
Felizmente na Europa Ocidental ainda prevalecem sólidos princípios doutrinários. As coligações que se formam em torno de partidos políticos têm clara definição dos seus objetivos. Os partidos têm uma linha mestra de pensamento clarificado em diferenças de fundo e de forma. As máquinas partidárias têm vida permanente embasadas em um conjunto de princípios doutrinários que as diferenciam.
O momento eleitoral trava-se com programas de governo nítidos, definidores de rumos, de opções de desenvolvimento. A personalização dos candidatos não se identifica com a espetacularidade do marketing, unicamente, mas o programa concreto de governo do partido a que pertença. Na França, a eleição do primeiro-ministro Lionel Jospin é o exemplo disso. Dois anos antes, Jospin e o seu Partido Socialista foram majoritariamente derrotados pelo presidente Jacques Chirac.
O Brasil, infelizmente, após a redemocratização fixou a sua matriz na política espetáculo norte-americana, sem levar em conta os seus fundamentos positivos. A isso se some a fragilidade de nossos partidos. Na grande maioria, meros cartórios de registro de candidaturas. Destituídos de definições doutrinárias. E aí está o circo dos horrores da política nacional.
Ainda agora, nos EUA, na sucessão de Bill Clinton, alguns dos postulantes à Presidência da mais importante nação do mundo, são os profissional de luta-livre Jesse Ventura, eleito governador do Estado de Minesotta, os atores Warren Beatty, Arnold Scwazenegger, a atriz Cybil Sheppard e o apresentador de televisão Pat Buchanan. É a política despolitizadora do Estado espetáculo. O caminho foi inaugurado por Ronald Reagan.
Por aqui, o campo está bem fertilizado para esse tipo de aventureiros. A fragilidade da legislação eleitoral, impotente para atuar preventivamente, aliada à artificialidade dos partidos políticos, geram um cenário preocupante.
Enfrentar essa realidade é o desafio. Sem política não existe sociedade. A Política (com P maiúsculo) é a essência da própria vida humana. É um ensinamento que vem da velha Grécia.
Os políticos sérios e éticos têm o dever indeclinável de enfrentar essa questão. O Estado democrático exige uma ampla reforma política que estabeleça a fidelidade partidária, o voto distrital misto, a cláusula de barreira e a fonte de financiamento público para as disputas eleitorais. Retardar essa reforma fundamental para o Estado democrático é ampliar a dimensão de uma crise que já é muito séria. A credibilidade pública nos seus atores políticos já atinge um nível perigosíssimo.
Na Venezuela começou assim. Aquele que era o mais sólido processo democrático da América Latina, por várias décadas, viu as suas históricas coligações social-democrata e democrata-cristã serem varridas da vida política pelo voto popular. O instrumento de mudança foi uma figura de aventureiro providencial proclamada de um novo salvador da Pátria.
Deus nos livre de algo parecido por aqui. Contudo, na política do Estado espetáculo, tudo é possível.





