Política, dissenso e representatividade
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quinta-feira, 12 de junho de 2003
Marcos Rogério Gomes 
O desobediente pensador norte-americano Henry Thoreau já dizia, no século XIX, que ''o respeito reverente pela lei tem levado até mesmo os bem-intencionados a agirem cotidianamente como mensageiros da injustiça''. Parece-nos bastante óbvio que a ''súbita'' representatividade posta à prova pelos estudantes londrinenses não se enquadra no entendimento de representação esboçado dia desses pelo presidente da Câmara Municipal de Vereadores, o senhor Orlando Bonilha. Em entrevista à rádio CBN, dizia ele ser inviável a proposta que almeja diminuir o número de vereadores (Londrina tem 21. Pode, se quiser, ter 9), pois assim perderíamos nós, a sociedade, cuja falta de legisladores obscureceria o pleno atendimento de nossas demandas sociais.
Quais são nossas demandas sociais? A quem se deve a existência de uma robusta e copiosa frota de ônibus urbano nesta cidade? Quem anda de ônibus? A vereadora Márcia Helena Carvalho Lopes, em sua dissertação de mestrado, evidencia a necessidade de se pensar e executar uma administração pública democrática, popular e, acima de tudo, descentralizadora. Isto significa entender a relação conflituosa entre Estado e sociedade a partir de uma visão política construída sob bases quase sempre apartidárias e genuinamente populares, que são voilà! os grupos de pressão: pessoas corajosas o suficiente para expressar suas indignações e reivindicar seus direitos, pulando catracas e interrompendo a passagem em pleno rush londrinense.
É o dissenso, ou seja, a divergência de idéias, a contestação e a expressão pragmática da contrariedade que se exacerba quando um regime democrático se descentraliza e pluraliza sua representatividade. Qual é a margem de lucro das empresas de transporte urbano locais? Ou, melhor dizendo, quantas empresas existem na cidade? E por quê? E por que apenas estudantes? Talvez pelo fato do estigma de ''baderneiro'' ser menos indelével em jovens que moram em repúblicas da região central do que em trabalhadores submetidos ao comércio informal de passes às bocas do terminal.
Não contesto a opinião do senhor Bonilha, mesmo porque seu principal argumento é deveras convincente: se Londrina da década de 50 já tinha 21 vereadores, como poderia agora empreender uma operação inversamente proporcional? (Lembrando que a Constituição determina um máximo de 21 representantes para municípios com até um milhão de habitantes). O problema é que nós, a sociedade, às vezes refletimos sobre certas representatividades políticas através de pesos e medidas intermediados por princípios democráticos inevitavelmente descentralizados do poder instituído.
MARCOS ROGÉRIO GOMES é estudante de pós-graduação em História Social pela Universidade Estadual de Londrina


