Política, discurso e ação - Abraham S. Buchala
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de junho de 1998
Abraham S. Buchala 
A realidade do homem é geralmente limitada por sua percepção sensorial, pela emoção, pensamento e imaginação. Estas facetas são os canais através dos quais nos relacionamos com a vida. Conforme orientemos estes aspectos, perceberemos a realidade.
Mas a orientação depende de que? Depende do objetivo que tenhamos. Nesta direção nos orientaremos.
Um arquiteto, por exemplo, concentra seus sentidos, sua emoção, seu pensamento e sua imaginação em como delimitar o espaço, da melhor forma, para construir edifícios. Um químico se dedicará à compreensão das leis que regem os elementos para criar novas substâncias. Todos, não importa qual seja sua área de interesse, concentram as próprias potencialidades em seu objetivo, sendo este objetivo o centro imóvel que atrai todas as nossas energias.
À luz de tal conhecimento reflito: qual a perspectiva do povo brasileiro? Como pode ser avaliada a situação geral de uma nação que só vê avolumarem à sua volta os problemas que mais comprometem sua existência, as cobranças, os impostos extorsivos, o desemprego, a quebradeira geral, a falta de convergência política na solução daquelas questões primordiais para que sobrevivamos e vislumbremos um futuro próspero? Difícil responder.
Numa loja comercial da rua Sergipe, enquanto auxilio um amigo em seu comércio converso com várias pessoas numa tarde dessas. Me deparo com todo o tipo de gente num período de quase quatro horas seguidas. Puxo conversa e acabo pesquisando suas impressões sobre o dia-a-dia. Ninguém demonstra grande esperança no amanhã. Ninguém fala de um objetivo para sua vida com paixão de quem realmente tem um para si. Todos declaram desconfiança na palavra e na ação deste ou daquele político; deste ou daquele governante. Todos têm reclamações a fazer. Reclamações tristes e penosas de promessas que foram feitas e não cumpridas. De tornar-se público e notório o desempenho político em interesse próprio, nada mais. Do reconhecimento do povo apenas quando faltam alguns dias para a eleição.
O que está acontecendo, na verdade, é que o povo está confuso, com a mente e o coração perturbados num grau nunca antes ocorrido. Em decorrência disso a tendência é generalizar e nivelar a todos por baixo, sem distinção daqueles que merecem - se é que existe algum. Tornamo-nos como uma nau perdida num tempestade em alto mar. Como é possível ter esperança quando tudo parece estar afundando? Haja fé para isso.
Abre-se a temporada dos oportunistas quando tudo está conturbado como agora. Com eleições, então, eles brotam como fogo em grama seca. Candidatos aparecem do nada fazendo-se capaz de resolver e salvar o que está em desacordo à vontade do povo.
Vai aqui um recado de consumidor aos candidatos em geral: muito cuidado com o discurso. Atenham-se à realidade. Avaliem bem o que é possível ser feito no exercício da função pleiteada. Se necessário, faça um estudo minucioso das verdadeiras funções a serem desempenhadas durante o mandato para transformar em compromisso de campanha somente aquilo que se atém a estas funções. Não exagere com o povo. O deputado é legislador. Executa muito pouco. Pode pressionar, mas não executar. Cuidado com o poder. Ele é frágil.
O percentual da população que concede crédito à oratória diminuiu consideravelmente. Ninguém está interessado em discurso. Acabou. Quem faz, faz. Não precisa nem dizer. A gente sabe. Consciência é a melhor medida. O sonho acabou. A nação precisa de estadistas e legisladores que conheçam o verdadeiro sentido desses substantivos e se esforcem a se enquadrar neles. Todos já viram que o discurso não enche panela de ninguém.
- ABRAHAM S. BUCHALA é engenheiro


